18/11/2025
O dedo da joaninha
14/11/2025
AFAGO
como um móbile
meus dedos talvez a quebrem
meus beijos talvez a furem
meus lábios talvez a fumem
trago a palavra afago.
trago a palavra afago
com os olhos fechados
com desenhos de sombras de luz
talvez apenas abra os olhos
a palavra afago é uma amiga
uma pedra, uma entrega
em que me desprendo
despenco
a palavra afago é um interruptor de mim
afago apago
afago apago
afago
é intuitivo me afogar neste momento
é um desejo morrer de afago
a fogo
afogo.
25/02/2025
DOIS FAMOSOS ANJOS
Por dois tempos
Em meus ouvidos.
Estava andando aqui
E um deles repetiu
“Albert Camus!”
Fiquei tranquilo
E sem saber o que era aquilo
Escutei o segundo zumbido:
21/02/2025
13/02/2025
O CALANGO E A DAMA-DA-NOITE
No centro do quintal da Vó Zelda havia uma árvore espetacular. Ali no mundo tudo girava em torno daquela frondosa Dama-da-noite. Suas folhas eram veludo, seu tronco curto e forte como a certeza e a copa formava um giro sublime. E era embaixo dessa realeza de planta que morava, junto a um montinho de pedras, um calango. Um calango da cor de uma mata. Um calango que, por capricho da natureza ou artimanhas do coração, nunca dormia à noite.
12/02/2025
LIVROS
Desordem
É só vir para casa
Que os poetas todos saem da estante
A fileira alfabética deixa lugar para um rastro de satisfação impossível de curiosidades
11/02/2025
ORAÇÃO A SÃO JORGE
"(...) Eu andarei vestido e armado com as armas de Jorge, para que meus inimigos (...)"
Que meus inimigos, tendo olhos, não me enxerguem,
Que seus olhos se ofusquem e
Percebam que há mais no mundo do que minha queda.
E percebam que minha queda
É um instante de experiência,
E que, junto a eles, eu tudo engulo.
10/02/2025
NÓ NO ACASO
Descobri este atalho num dia em que o celular falhava, a caixa de email não abria, as pessoas não estavam, quem me queria mostrou alheamento, o pneu do carro furou e tudo apresentava uma dificuldade de conexão do século passado. Se persistisse na labuta de servente de pedreiro, quebrando aquele muro que o acaso me apresentava, não iria longe.
GOLZINHO
Ontem (bem ontem...) Joãozinho deu um chute
E a bola fez só o que ele queria
Foi gol por todos os cantosOs meninos gritando que golaço!
Enquanto eu percebia o gol
Pelos sorrisos e mãos abanando
08/02/2025
06/02/2025
E SOBRE O LIXO?
Amigo poeta
Já pensou em
escrever algo singelo sobre o lixo?
E sobre o
Trump?
Já tentou
cantar algum poema sobre a covardia?
Cada dia uma
manchete, uma bravata
E sobre o
Trump?
Basta ser um
homem branco de gravata
Para redesenhar
o mapa e vender
como idiossincrasia?
03/02/2025
PIPA
QUE VENHAM OS PIORES
Ao ler a página de Opinião do último dia 1º, tomei conhecimento do texto de autoria do advogado e jornalista J. O., “De poesia e poetas”, exemplo de pensamento bem articulado, mas simplista e sem maior análise.
O autor condenou em todo seu texto a proliferação descontrolada das publicações poéticas/literárias e o conseqüente aparecimento dos inevitáveis poetaços. Num tom que me fez lembrar de longe Mein Kampf, ele defendeu, citando Goethe, que “uma poesia deve ser excelente ou não existir de modo algum.”
BARQUINHO MENINO
Era a vez de um barquinho, da cor da flor mais linda. E todos viam o barquinho em alto mar, sem pirata ou marinheiro, a marejar no horizonte. E todos não sabiam da existência do menino capitão, que existia no barquinho a conduzir o leme. Do lado avesso do barquinho, lá no convés do contrário, onde olhos não viam, ele permaneceu existindo por toda a vida. E de lá desse lugar imaginável, viu a noite por inteiro, viu o dia derramar, e viu o sol ser uma laranja. O mar foi lágrima boa de sua vida. Seus pés sempre tiveram uma bacia para tempos quentes. Mas os milhões de turistas da praia não sabiam de seus dias. E suas conquistas foram atribuídas ao vento, seus tormentos foram tidos como ranger do casco, seu sorriso foi confundido com rasgar de velas. Quando cansou de ser tudo isso que contei, sem despedida ou tempestade, mergulhou num naufrágio de brisa.
29/01/2025
26/01/2025
SEUS OLHOS E MEU POEMA
Com o poema tudo posso! (em voz alta)
Com ele
pulo
Driblo, corro e tropeço
Nos seus olhos
Com ele
quebro
Desestruturo e
Por fim
me embolo
Nos seus olhos
Fujo com palavras
Finjo que vôo,
Mergulho e empino
Caindo aqui
Nos seus olhos
Rodopio meu poema
Em torno deles
Me torro e queimo
Em sua órbita
Seus olhos são a chama do meu poema atrapalhado?
“- Com o poema você nada pode.” (em voz serena)
24/01/2025
APROPRIAÇÃO
O celular roubou meu nome, minha identidade, meu retrato.
O celular roubou minhas noites
Roubou o susto da lua, o medo das luzes fracas da cidade
Roubou meu encantamento pela dura arquitetura e por sua
inexistência
O celular veio e roubou as brincadeiras, o toque
Roubou o erro e até os atritos que acabavam em discussões
Roubou a sensação de ter um abraço, os olhares nos fundos
dos olhos
Roubou a mesa, os jogos, a leitura e o tricô
Roubou minha letra e a necessidade de me fazer entendido
O celular roubou o filme em família, as poções de pipoca
Roubou a brincadeira contínua
A conversa contínua
O ócio contínuo e em família
O celular veio e roubou a poesia
Transformou tudo em shorts e insignificâncias vazias
Dividiu meu dia em pequenos pedaços desconexos
O celular roubou o poema de João Cabral de Melo Neto
Triturou tudo de amor que havia ali
22/01/2025
O DIA EM QUE FALEI COM JOÃO CABRAL DE MELO NETO, OU QUASE
Um parente distante morreu e restaram algumas caixas de livros na casa da minha avó. Dentre eles estava um exemplar de Duas Águas, primeira edição da José Olympio. Foi neste livro que mergulhei por alguns dias e foi talvez meu primeiro contato real com a poesia. Claro, já havia lido poetas da escola e da família, mas nunca um poeta de toga, da capa ao fine.
Tão absorvido fiquei pelos textos que veio uma fixação pelo autor.
Meu pai era delegado de polícia federal no Rio de Janeiro e não foi difícil realizar um desejo meu: o telefone e endereço do poeta. Era na praia do Flamengo que ele morava e foi para lá que liguei certa noite, clandestinamente.
O telefone tocava e ninguém atendia.
21/01/2025
FIM DE MIM
Sei que não entro em lugares
Mas quem entra aqui no meu latim?
Sem permissão e sem chave
Terá que percorrer todo enclave
Ou sair com desdém de mansim
Não tem nada que valha aqui
Apenas o pouco gesto
Apenas a penúria do resto
Que traguei e ainda trago pr'este cantim
Cestim de poucas palavras
É uma cela
Se fossem muitas,
seria uma cela ainda assim
Não não não sei porque escrevo e boto a mão no fogo
Talvez porque seja algum filho mais novo
Do bicho vaidoso que mora em mim
Se tem alguma glória neste botim
Se tem razão neste novelo
Talvez seja montar seu tempo a pêlo,
trazendo você comigo, até este verso do fim.
ECO
Não consigo nomear uma certa dor que percebo ao perder para sempre este instante.
(Perda + dor) - tempo
Esta palavra não vem
Teria que ser algo como uma fotografia
não a nostalgia, que não basta
não a melancolia, que não veste
Esta palavra não há
Talvez uma palavra inventada
tempessência
Que seria uma palavra somente minha
Ou nada disso
Conseguiria não escrever esta falta?
Como uma não-palavra
que expressasse minha dor pelo inverso do argumento
pelo vácuo de um momento
pela lacuna deixada pelo que foi
Instâncua
Mas tudo ainda seria apenas o eco de um grito.
09/01/2025
A CASA DO PAI
A casa do pai
lugar ou tempo?
Já disse que vejo suas mãos nas minhas
Espelho ou susto?
Ouvi dizer que “pai é palha”
Como? Se este peso pelo ato pelo desatino pelo grave pelas
estantes de vidro acumuladas em cada dobra dos dedos?
A casa do pai tem um conjunto de algo simples e caro que
abraça minha vida
Tem também uma entrega formal que coleciona lágrimas
A casa do pai tem muitos quartos
Alguns deles com alvenaria e janela
O meu é só uma ausência
Há um quarto com enfeites e bijuterias
com certificados de datas infinitas
Há um quarto tímido que insinua uma construção maior
Há uma voz num dos quartos que inicia um discurso
A casa do pai é firme como a minha.
08/01/2025
QUANDO
Acho que desde então.
Quando muro
Quando só sem arrimo
Quando medo
Quando pulso
Quando corto e o sangue não pára
Quando sem ar
Quando voz
Quando grito
Quando espinho
Quando calma
Quando escuro
Quando perco
Quando esmurro
Quando dói
Quando sonho
Quando berro
- Desde quando?



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