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18/11/2025

O dedo da joaninha

    
Uma foto da joaninha no dedinho da Luísa... Era uma vez esta história que começou do fim. Mas, até começando pelo fim, o fim desta história acabaria por ser o começo... 
    Então posso dizer que era uma vez o início da história da joaninha. De uma joaninha que perambulava pelo jardim sem vontade nenhuma, sem rumo. Mas por ali estava uma menina e seu dedo compridinho e um sorriso aberto. O dedo parecia apontar uma primeira estrela, dizer "presente!" ou indicar um caminho. Mas aquele dedo da menina estendido ali no jardim da joaninha tinha um diferente propósito. O dedo tinha um desejo imenso de encontrar ... a joaninha. 
     Inevitavelmente, a joaninha distraída encontrou o dedo e a história da menina. Ajeitou as antenas, assustada, deu uma piscadela e, dali em diante, passou a ser o desejo da joaninha subir no dedo dela.
        Com felicidade e um pouco de gastura de cada lado, o dedo da menininha e as patinhas da joaninha estavam juntinhas, plantadas numa só fotografia, fazendo cócegas e batendo asas. 

12/02/2025

Tenho medo.

Papai, não quero sonhar.

Pega meu sonho para você?

Quando eu acordar você me devolve?

LIVROS

Desordem

É só vir para casa
Que os poetas todos saem da estante

A fileira alfabética deixa lugar para um rastro de satisfação impossível de curiosidades

PEDACINHO


A formiga é um brinquedo

Que corre

Ou tijolo que soma
Ou barquinho que some
Ou mínimo sorriso

É companheira disso
Desse cortiço de cores
Dessa cachoeira insubmissa

10/02/2025

GOLZINHO

Ontem (bem ontem...) Joãozinho deu um chute

E a bola fez só o que ele queria

Foi gol por todos os cantos

Os meninos gritando que golaço!
Enquanto eu percebia o gol
Pelos sorrisos e mãos abanando

03/02/2025

PIPA

 

    Todos os pingos são pipas e o sol é pipa e a água molha a pipa que não sobe e o papai solta pipa e tudo tem que ser pipa porque pipa é cor e é lindo e é brincadeira sem fim que o vento leva e traz sorriso e a pipa sobe e desce como se fosse um pássaro um balão e tudo que vi até hoje descer sob meus olhos que são duas pipas que dão linha e dançam e são verdes vermelhos e amarelo verde e azul e preta e cadê a pipa papai?

10/12/2024

TROPICÃO

 

Ando sempre com a bolinha na mão

Qualquer tropicão

Largo o mundo 

E abraço a bola


09/05/2023

CASA MUITO ENGRAÇADA

 

        Era uma casa muito engraçada, cheia de brinquedos e coisas de adulto.

Havia duas crianças na casa dos adultos que transformavam as coisas dos adultos em coisas de criança.

Então a casa era uma casa completamente das crianças.

Havia a sala de estar, que virava um campo de futebol.

Havia a área de serviço, que virava um laboratório.

Havia muitas portas, que viravam cavaletes e pilares para a menina ginasta.

A menina jogava as almofadas no chão e brincava de amarelinha.

         O menino transformava os papéis importantes em miniaturas de aviões.

         Era uma casa muito engraçada, cheia de adultos felizes.


26/08/2022

COLEÇÕES DE INFÂNCIA

A formiga é um brinquedo

Que corre e captura pedaços da minha infância

 Sou dono de todas as formigas daquela avenida 


O aviãozinho pode parecer um bicho

Já fiz toda minha família ficar jogando aviõezinhos em harmonia

Já fiz meu pai inquirir os vizinhos sobre tanajuras

 

Faço coleção de coisas que não permanecem

Levo uma frota de papel nos bolsos


As minhas gavetas são maiores 

do que o mundo

 

Lá escondo o que os adultos não entendem

 

Minha infância cresce para todo lado

25/08/2022

TODOS OS BICHOS


Pedro decidiu que possui todos os bichos da natureza, inclusive os de verdade, aqui em casa. Acontece que esta decisão trouxe para a família algumas situações embaraçosas.

Como entrar, por exemplo, com todos eles no elevador?

- Apertam com o chifre os botões do painel, óbvio. E para abrir a porta, usam as orelhas – respondeu o menino.

E todos os bichos moram dentro do apartamento, então, até os maiores e pescoçudos.

19/08/2022

SÉRIO? SERÍSSIMO? SERÚSSO? SERIAÇO? SÉRIO-TIRANOSSAURO-REX?

      Perto da casa do menino havia uma grande obra. Como estávamos no meio da pandemia, só poderíamos agradecer muito ao prefeito por trazer esta diversão para aqui bem embaixo de nossa janela. Realmente se revelava uma ação de uma generosidade ímpar. 

Logo pela manhã, os monstros de metal já começavam seus barulhos. Eram tratores enormes, patrolas, caminhões pipas, rolos compressores e outras máquinas que nem sabíamos ensinar os nomes.  

A obra era no viaduto do complexo Carlos Drummond de Andrade e virou rotina da família, à tardezinha, paralisar o trabalho e fazer um passeio para aquele safari urbano e de ferro. O menino lindo viajava com a visão das máquinas, se empolgava, vibrava e o dia começava mais ou menos assim:

Às 7:30 h da manhã: 

- Hoje nós vamos ver a obra? Não é? Sério? Seríssimo? Serússo? Seriaço? Sério-tiranossauro-rex? 

Era o jeito dele de nos arrancar um contrato inquebrantável.

12/08/2022

TUDO EM ORDEM

                        Sobre o dia em que invadi o quarto do João sem aviso. 


Estava com a consciência andando de um lado para o outro e resolvi entrar no quarto dele. Comecei a arrumar gavetas, colocar as coisas em pilhas e minimizar as dobras de panos. 

Passei o aspirador de pó e comprei nova pasta de plástico, que aquela estava no fim. 

Depois do ensaio, saltei sobre os cadernos e livros. Sabia, por experiência, que são páginas marginais, muitas vezes, as últimas, algumas vezes, páginas esquecidas pelo meio da brochura, o depósito de pequenas fugas, alguns crimes e rebeliões.

02/08/2022

PONTO DE VISTA

 

O que é ponto de vista? Vou te explicar:

 

Fiz um laboratório, no canto da sala

Com copos, tralhas e ninharia

Misturei água e poções mágicas.

Da alquimia,

Os adultos só viram a casa ensopada.

01/08/2022

CONTA UMA HISTORINHA?

 

    Os meninos sempre pediam, antes de dormir, uma historinha de cabeça. Era o jeito deles dizerem que queriam uma história original, que não viesse de livro nenhum, que fosse feita ali mesmo, na frente deles, de improviso, quentinha, saindo na hora.

- Conta uma historinha? Mas tem que ser de cabeça!

E o pai contava e lá pelo meio da história, quase sempre, o sono batia, e as palavras se embaralhavam, e a história que falava sobre o peixinho que lutava, de repente, trazia frases desconexas, soltas, como “o combustível acabou”, aí o peixinho “o engarrafamento me fez atrasar”, “cinto de segurança”, “pega a caneta” etc. Os meninos riam da doidura momentânea do pai e o sacolejavam o lé-lé da cuca para tirá-lo daquela soneca.

- Conta uma historinha? Mas tem que ser de cabeça! Grandona, que essa foi pequenininha.

26/07/2022

KUNG FU BETTA

           

   
O peixinho recebeu o nome de Tog. Parecia uma sigla, mas como surgiu da imaginação do menino, todo mundo gostou.

Vivia num aquário, com pedrinhas coloridas e uma rama de plástico no meio. Era vermelho, de um vermelho escuro e provocante.

Gostava de se exibir quando aproximávamos.

Parece que ouvi dizer que esta espécie gosta de briga. Tão pequeninho e indefeso... Será verdade?

O certo é que dávamos cinco bolinhas de proteína toda manhã, trocávamos a água do aquário toda semana, e ele observava com atenção os movimentos de toda a família.

Só não aceitava que se aproximassem do aquário.

Parecia encarar a gente. Se você colocasse o dedo indicador perto do vidro, ele dançava, abria as barbatanas, querendo defender o seu território.

Mas quem gostaria de trocar com ele, morar no seu minúsculo aquário? Fico me perguntando.

Era comum surpreendê-lo, dormindo. Dormia de um jeito quase estátua, que parecia fruto de meditação, que dava medo da frágil criatura ter-se ido. Parecia fingir de morto. Conferíamos com o dedo, cutucando para ver se estava vivo, e ele já acordava chamando para o ringue.

Foi numa destas que o menino teve a ideia de buscar o boneco de brinquedo do Kung Fu Panda e colocar bem em frente ao aquário.

Donde veio esta maluquinha ideia, ninguém sabe. Mas como surgiu da imaginação do menino...

O Tog observou aquele adversário pançudo, eriçou as barbatanas, quase ficando na ponta de um só pé, ops!, quer dizer, modo de falar...

O certo é que Tog não respeitou o mestre das artes marciais, o famoso e lendário Kung Fu Panda, e ficou fazendo cara feia, chamando o oponente para dentro ou ameaçando vir para fora, para uma contenda.

Ficaram um tempão olhando um para o outro.

O Kung Fu Panda, numa posição eterna de um golpe fatal, nem mexia os olhos, nem as pernas, nem os braços, nem nada, já que era mesmo de um plástico rijo.

O Tog se movimentava todo, num estilo agressivo, e acho que mostrou conhecer alguns golpes impossíveis para meros iniciantes. Ele era um mestre e nem sabíamos quando o compramos. Pensei que fizemos um bom negócio, portanto.

Acontece que chegou a hora da escola do menino e naquele dia havia dever de casa para entregar, era dia do brinquedo e o pai estava com pressa, e talvez por isto esquecemos o Kung Fu Panda em frente ao aquário do Tog.

Para quê, meu Deus?

Foi uma tarde inteira de intensa luta... pelo menos dentro daquela caixinha de vidro.

Se peixe suasse, o Tog estaria encharcado de tanto soco que dera na água.

Mas, valeu a pena. Pois, no fim da tarde, quando o menino voltou da escola, qual não foi a surpresa em encontrar o Kung Fu Panda deitado, com uma gota d´água na testa, bem próximo ao aquário.

- O Tog venceu! Gritou o menino, quando viu a cena.

TOG versus KUNG FU PANDA!

- O Tog venceu! Repetiu o menino, orgulhoso.

O pai, depois de fechar a janela, não soube explicar o que tinha acontecido, ficando com a explicação e entusiasmo do menino.

Na manhã seguinte à luta, por precaução, diminuiu de cinco para três bolinhas de proteína a alimentação do Kung Fu Betta.

25/07/2022

MEU FORRÓ

    O vovô decidiu morar bem longe, num sítio que a gente demorava para chegar. Passava por uma estrada de terra, muitas lombadas e um montão de curvas. Era tão longe que o vovô parecia morar sozinho naquele mundo, depois de uma ponte e de um rio, pelas bandas de Montes Claros.

Mas, como atrativo para o menino e demais netos, o vovô comprou um lindo e sistemático cavalo.

Aquele cavalo habitava o sítio como um doce que atraísse a criançada.

O cavalo parecia ser usado na lida da roça, ser de todos os netos, mas de alguma forma ficou aquela verdade que era do menino e só dele.

No primeiro dia em que o menino, cheio de expectativas, foi conhecer o cavalo que ganhara, decidiu dar-lhe um nome pomposo.

Pensara numa coleção deles: Corcel, Thor, Trovão e até Coronel. No entanto, o vovô se adiantou ao batismo, com uma voz carinhosa e na tonalidade certa, dizendo:

- É seu, o cavalinho, mas já veio com nome: Forró!, não é lindo?

Ah, mas ele disse com aquele jeito de avô e o menino adorou já ganhar um cavalo com nome de fábrica. E o nome era diferente de tudo e por isto era perfeito, de certa forma se encaixando com a esquisitice do cavalo.

É que o cavalo era de um tipo que, uma vez com cela, não aceitava passar perto de nada que ameaçasse deixá-lo fechado. Nada mesmo. O Forró era um cavalo baio, forte, ágil e que se desesperava quando diante de algum aprisionamento.

Cerca, porta, parede, corredor, tudo que desse a impressão de fechar o cavalinho era motivo para o descontrole. Até se o cupinzeiro do pasto fosse mais alto, o Forró já ficava cismado. Entrar numa baia, nem pensar. Ele pulava, nervoso, girava a cabeça, ameaçava dar pirueta, era um fuzuê.

E o menino aprendeu a lidar com aquele defeito do cavalo. Andava com segurança o dia inteiro no lombo do Forró, ao ponto de o caseiro brincar, quando o cavalo voltava todo suado, no fim da tarde:

- Ichi, deste jeito o Forró desaba!

O menino e o Forró criaram uma amizade bonita de se ver. O cavalo permitia alguns galopes, deixava que o menino o empinasse e era visível a alegria de ambos. Há uma foto do Forró empinando com o menininho que é linda e de tirar o fôlego.

Foi assim que, com o Forró no sítio, decidimos sempre visitar o vovô e o cavalo.

Certo dia, depois de alguns meses de saudades, compramos passagem para apear naquele rancho tão caro para nós e distante de tudo.

Havia uma notícia no jornal regional que trazia uma certa preocupação para nossos planos. No rumo do sítio do vovô, a poucos dias de nossa viagem, houve tremores de terra. Alguns jornais estampavam o nome que dava medo: “terremoto”. Será? Será que houve mesmo?

O menino, quando ouviu a gente falando sobre o tremor, comentou:

- Eu sonhei com isto. É o Forró me chamando!

Todos rimos da farta imaginação do cavaleiro mirim.

Telefonamos para o vovô, tiramos nossa preocupação e confirmamos nossa ida.

Os dias que antecederam a viagem foram de uma ansiedade enorme. Fizemos contagem regressiva e a saudade do Forró chegava a ser a maior das saudades.

Logo que chegamos ao sítio, o menino, antes mesmo de se aquecer no abraço do vovô, saltou para cima da cela e de lá não desceu nem para almoçar. Os dois, cavalo e menino, pareciam brincar como crianças.

Era fim de tarde, quando houve outro tremor de terra. Assustado, olhei para o longe e vi o Forró e o menino.

O cavalo estava empinado e vi quando sua pata tocou o chão, coincidindo com o estrondo que se seguiu.

E vi o cavalo empinar novamente e percebi o tremor de terra e ouvi o estrondo coincidir com o toque das patas do cavalo no chão.

Assustadíssimo, olhei para o vovô, que sorriu sem surpresas.

O caseiro também observava desde o milharal e, após o tremor e o estrondo, voltou a baixar os olhos e a capinar e capinar.

O menino gritava ao longe:

- Não falei, papai, que era o Forró?

____________

Se você brincar muito comigo

Prometo te deixar um pouco criança.

20/07/2022

CABRUM, POW e PÁ

    

Naquele dia, o menino contou ao papai que estava com medo de trovão, rojão e balão, tudo que acabava com “ão” e fazia muito barulho.

O medo era aqui dentro da gente, mas parecia deixar tudo cá fora escuro como breu, como uma noite sem lua. Era de verdade e não era brincadeira, aquele medo. Machucava, mesmo, como espinho no pé, batida no joelho.

Era um medo de esquecer fantasias, de deixar as pistas de carrinhos de lado, de perder o sorriso por um minuto, de querer ir para casa correndo e deixar a festa. Mesmo com escorregador e guloseimas, a festa perdia a graça.

O que fazer quando o medo é assim grandão, papai? Perguntou o menino, com cara de choro.

- Ora, ora... tenho uma ideia - falou o papai, como se já tivesse sentido o mesmo medo.

– E se a gente desenhar os trovões, rojões e balões num papel? Desenhar com todas as cores de seus lápis, rabiscando forte cada estampido?

O menino, que confiava no papai, topou aquele plano.

E enquanto desenhava, usando preto para o trovão, amarelo para o rojão e vermelho para o balão, o menino dizia:

- Papai, de balão pequenininho, o medo nem é tão grande. Se o balão é grandão, aí não, o medo é gigante.

- De trovão baixinho, o medo é uma formiguinha. Se o trovão é alto, o medo vira leão.

- De rojão, lá longe, o medo é um traque. De rojão de time campeão, bem pertinho, o medo é uma explosão.

O menino conversava, imaginava e desenhava aqueles medos no papel. Dava até para ouvir o barulho dos desenhos.

Cabrum, pow e pá.

No fim da tarefa, o papai perguntou:

- Agora, e se a gente amassar a folha todinha, que está repleta de seus medos, surda de seus sustos, e jogar na lata do lixo? Topa?

O menino gostou da ideia, amassou na hora a folha com os desenhos dos medos e deu para ouvir um tanto de barulho medonho dentro da bola de papel. Era um cabrum, pow e pá baixinho, abafado pelas dobras.

Na sequência, aqueles medos barulhentos foram parar bem na lata do lixo, junto com restos imprestáveis de outras coisas. Não jogaram na lata dos recicláveis, para nem ter perigo de volta.

- Agora, e se a gente descer com o lixo e ver daqui da janela os seus medos irem embora?

Era dia da coleta e, à noite, quando chegou a hora, ficaram os dois debruçados na janela, assistindo o caminhão da prefeitura, com os moços da limpeza, recolhendo tudo, inclusive aquela folha enrolada cheia de medo, cabrum, pow e pá.

Os moços da limpeza nem suspeitavam do perigo que corriam.

Será que no lixo de cada casa havia uma folha com medos desenhados?

O caminhão de lixo foi embora, lento e pesado, rua acima, levando na caçamba todo o medo do menino.