18/11/2025
O dedo da joaninha
12/02/2025
LIVROS
Desordem
É só vir para casa
Que os poetas todos saem da estante
A fileira alfabética deixa lugar para um rastro de satisfação impossível de curiosidades
10/02/2025
GOLZINHO
Ontem (bem ontem...) Joãozinho deu um chute
E a bola fez só o que ele queria
Foi gol por todos os cantosOs meninos gritando que golaço!
Enquanto eu percebia o gol
Pelos sorrisos e mãos abanando
03/02/2025
PIPA
10/12/2024
09/05/2023
CASA MUITO ENGRAÇADA
Era uma casa muito engraçada, cheia de brinquedos e coisas de adulto.
Havia duas crianças na casa dos
adultos que transformavam as coisas dos adultos em coisas de criança.
Então a casa era uma casa
completamente das crianças.
Havia a sala de estar, que virava um
campo de futebol.
Havia a área de serviço, que virava
um laboratório.
Havia muitas portas, que viravam cavaletes e pilares para a menina ginasta.
A menina jogava as almofadas no chão e brincava de amarelinha.
O menino
transformava os papéis importantes em miniaturas de aviões.
Era uma casa
muito engraçada, cheia de adultos felizes.
26/08/2022
COLEÇÕES DE INFÂNCIA
A formiga é um brinquedo
Que corre e captura pedaços da minha infância
O aviãozinho pode parecer um bicho
Já fiz toda minha família ficar jogando aviõezinhos em harmonia
Já fiz meu pai inquirir os vizinhos sobre tanajuras
Faço coleção de coisas que não permanecem
Levo uma frota de papel nos bolsos
As minhas gavetas são maiores
do que o mundo
Lá escondo o que os adultos não entendem
Minha infância cresce para todo lado
25/08/2022
TODOS OS BICHOS
Pedro decidiu que possui todos os bichos da natureza,
inclusive os de verdade, aqui em casa. Acontece que esta decisão trouxe para a
família algumas situações embaraçosas.
Como entrar, por exemplo, com todos eles no elevador?
- Apertam com o chifre os botões do painel, óbvio. E
para abrir a porta, usam as orelhas – respondeu o menino.
E todos os bichos moram dentro do apartamento, então,
até os maiores e pescoçudos.
19/08/2022
SÉRIO? SERÍSSIMO? SERÚSSO? SERIAÇO? SÉRIO-TIRANOSSAURO-REX?
Logo pela manhã, os monstros de metal já começavam seus barulhos. Eram tratores enormes, patrolas, caminhões pipas, rolos compressores e outras máquinas que nem sabíamos ensinar os nomes.
A obra era no viaduto do complexo Carlos Drummond de Andrade e virou rotina da família, à tardezinha, paralisar o trabalho e fazer um passeio para aquele safari urbano e de ferro. O menino lindo viajava com a visão das máquinas, se empolgava, vibrava e o dia começava mais ou menos assim:
Às 7:30 h da manhã:
- Hoje nós vamos ver a obra? Não é? Sério? Seríssimo? Serússo? Seriaço? Sério-tiranossauro-rex?
Era o jeito dele de nos arrancar um contrato inquebrantável.
12/08/2022
TUDO EM ORDEM
Sobre o dia em que invadi o quarto do João sem aviso.
Estava com a consciência andando de um lado para o outro e resolvi entrar no quarto dele. Comecei a arrumar gavetas, colocar as coisas em pilhas e minimizar as dobras de panos.
Passei o aspirador de pó e comprei nova pasta de plástico, que aquela
estava no fim.
Depois do ensaio, saltei sobre os cadernos e livros. Sabia, por
experiência, que são páginas marginais, muitas vezes, as últimas, algumas
vezes, páginas esquecidas pelo meio da brochura, o depósito de pequenas fugas,
alguns crimes e rebeliões.
02/08/2022
PONTO DE VISTA
O que é ponto de vista? Vou te explicar:
Fiz um laboratório, no
canto da sala
Com copos, tralhas e ninharia
Misturei água e poções
mágicas.
Da alquimia,
Os adultos só viram a casa
ensopada.
01/08/2022
CONTA UMA HISTORINHA?
-
Conta uma historinha? Mas tem que ser de cabeça!
E
o pai contava e lá pelo meio da história, quase sempre, o sono batia, e as
palavras se embaralhavam, e a história que falava sobre o peixinho que lutava,
de repente, trazia frases desconexas, soltas, como “o combustível acabou”, aí o
peixinho “o engarrafamento me fez atrasar”, “cinto de segurança”, “pega a
caneta” etc. Os meninos riam da doidura momentânea do pai e o sacolejavam o
lé-lé da cuca para tirá-lo daquela soneca.
-
Conta uma historinha? Mas tem que ser de cabeça! Grandona, que essa foi
pequenininha.
26/07/2022
KUNG FU BETTA
Vivia num aquário, com
pedrinhas coloridas e uma rama de plástico no meio. Era vermelho, de um
vermelho escuro e provocante.
Gostava
de se exibir quando aproximávamos.
Parece que ouvi dizer que esta espécie gosta de briga. Tão pequeninho e indefeso... Será verdade?
O
certo é que dávamos cinco bolinhas de proteína toda manhã, trocávamos a água do
aquário toda semana, e ele observava com atenção os movimentos de toda a
família.
Só
não aceitava que se aproximassem do aquário.
Parecia
encarar a gente. Se você colocasse o dedo indicador perto do vidro, ele
dançava, abria as barbatanas, querendo defender o seu território.
Mas
quem gostaria de trocar com ele, morar no seu minúsculo aquário? Fico me
perguntando.
Era
comum surpreendê-lo, dormindo. Dormia de um jeito quase estátua, que parecia
fruto de meditação, que dava medo da frágil criatura ter-se ido. Parecia fingir
de morto. Conferíamos com o dedo, cutucando para ver se estava vivo, e ele já
acordava chamando para o ringue.
Foi
numa destas que o menino teve a ideia de buscar o boneco de brinquedo do Kung
Fu Panda e colocar bem em frente ao aquário.
Donde
veio esta maluquinha ideia, ninguém sabe. Mas como surgiu da imaginação do
menino...
O
Tog observou aquele adversário pançudo, eriçou as barbatanas, quase ficando na
ponta de um só pé, ops!, quer dizer, modo de falar...
O
certo é que Tog não respeitou o mestre das artes marciais, o famoso e lendário
Kung Fu Panda, e ficou fazendo cara feia, chamando o oponente para dentro ou ameaçando
vir para fora, para uma contenda.
Ficaram
um tempão olhando um para o outro.
O
Kung Fu Panda, numa posição eterna de um golpe fatal, nem mexia os olhos, nem
as pernas, nem os braços, nem nada, já que era mesmo de um plástico rijo.
O
Tog se movimentava todo, num estilo agressivo, e acho que mostrou conhecer
alguns golpes impossíveis para meros iniciantes. Ele era um mestre e nem
sabíamos quando o compramos. Pensei que fizemos um bom negócio, portanto.
Acontece
que chegou a hora da escola do menino e naquele dia havia dever de casa para
entregar, era dia do brinquedo e o pai estava com pressa, e talvez por isto esquecemos
o Kung Fu Panda em frente ao aquário do Tog.
Para
quê, meu Deus?
Foi
uma tarde inteira de intensa luta... pelo menos dentro daquela caixinha de
vidro.
Se
peixe suasse, o Tog estaria encharcado de tanto soco que dera na água.
Mas,
valeu a pena. Pois, no fim da tarde, quando o menino voltou da escola, qual não
foi a surpresa em encontrar o Kung Fu Panda deitado, com uma gota d´água na
testa, bem próximo ao aquário.
-
O Tog venceu! Gritou o menino, quando viu a cena.
TOG
versus KUNG FU PANDA!
-
O Tog venceu! Repetiu o menino, orgulhoso.
O
pai, depois de fechar a janela, não soube explicar o que tinha acontecido,
ficando com a explicação e entusiasmo do menino.
Na manhã seguinte à luta, por precaução, diminuiu de cinco para três bolinhas de proteína a alimentação do Kung Fu Betta.
25/07/2022
MEU FORRÓ
20/07/2022
CABRUM, POW e PÁ
Naquele
dia, o menino contou ao papai que estava com medo de trovão, rojão e balão,
tudo que acabava com “ão” e fazia muito barulho.
O medo era
aqui dentro da gente, mas parecia deixar tudo cá fora escuro como breu, como
uma noite sem lua. Era de verdade e não era brincadeira, aquele medo.
Machucava, mesmo, como espinho no pé, batida no joelho.
Era um medo de
esquecer fantasias, de deixar as pistas de carrinhos de lado, de perder o
sorriso por um minuto, de querer ir para casa correndo e deixar a festa. Mesmo
com escorregador e guloseimas, a festa perdia a graça.
O que fazer
quando o medo é assim grandão, papai? Perguntou o menino, com cara de choro.
- Ora, ora...
tenho uma ideia - falou o papai, como se já tivesse sentido o mesmo medo.
– E se a gente
desenhar os trovões, rojões e balões num papel? Desenhar com todas as cores de
seus lápis, rabiscando forte cada estampido?
O menino, que
confiava no papai, topou aquele plano.
E enquanto
desenhava, usando preto para o trovão, amarelo para o rojão e vermelho para o
balão, o menino dizia:
- Papai, de
balão pequenininho, o medo nem é tão grande. Se o balão é grandão, aí não, o
medo é gigante.
- De trovão
baixinho, o medo é uma formiguinha. Se o trovão é alto, o medo vira leão.
- De rojão, lá
longe, o medo é um traque. De rojão de time campeão, bem pertinho, o medo é uma
explosão.
O menino
conversava, imaginava e desenhava aqueles medos no papel. Dava até para ouvir o
barulho dos desenhos.
Cabrum, pow e
pá.
No fim da
tarefa, o papai perguntou:
- Agora, e se
a gente amassar a folha todinha, que está repleta de seus medos, surda de seus
sustos, e jogar na lata do lixo? Topa?
O menino
gostou da ideia, amassou na hora a folha com os desenhos dos medos e deu para
ouvir um tanto de barulho medonho dentro da bola de papel. Era um cabrum, pow e
pá baixinho, abafado pelas dobras.
Na sequência,
aqueles medos barulhentos foram parar bem na lata do lixo, junto com restos
imprestáveis de outras coisas. Não jogaram na lata dos recicláveis, para nem
ter perigo de volta.
- Agora, e se
a gente descer com o lixo e ver daqui da janela os seus medos irem embora?
Era dia da
coleta e, à noite, quando chegou a hora, ficaram os dois debruçados na janela,
assistindo o caminhão da prefeitura, com os moços da limpeza, recolhendo tudo,
inclusive aquela folha enrolada cheia de medo, cabrum, pow e pá.
Os moços da
limpeza nem suspeitavam do perigo que corriam.
Será que no
lixo de cada casa havia uma folha com medos desenhados?
O caminhão de
lixo foi embora, lento e pesado, rua acima, levando na caçamba todo o medo do
menino.












