13/02/2025

O CALANGO E A DAMA-DA-NOITE

No centro do quintal da Vó Zelda havia uma árvore espetacular. Ali no mundo tudo girava em torno daquela frondosa Dama-da-noite. Suas folhas eram veludo, seu tronco curto e forte como a certeza e a copa formava um giro sublime. E era embaixo dessa realeza de planta que morava, junto a um montinho de pedras, um calango. Um calango da cor de uma mata. Um calango que, por capricho da natureza ou artimanhas do coração, nunca dormia à noite.

Sua vigília era conhecida por todos no terreiro, e era no frio e no sereno que ele passava as horas apreciando a lua. Corria à boca pequena que por ter nascido em noite de lua cheia, o calango virara o ventre de paixão por aquela roda clara de luz, a lua.

E as galinhas dormiam. Dormia o único pato da paróquia. Dormia um cabritinho sem chifre. Dormiam os gatos chorosos. Até a coruja dormitava. E o calango passava as noites a admirar a lua. Seus olhos lacrimejavam, o que provocava brilhos que ele ofertava à lua.

Em troca das noites de paixão, o nosso calango passava aqueles dias dormindo.

Durante o dia, galinhas comiam tudo. O pato se sujava. O cabritinho dizia mé. Os gatos sumiam pela vizinhança. A coruja dormia. E o calango tinha olhos de peso de chumbo. Nada o fazia acordar.

Pois foi numa noite diferente que tudo aconteceu. O calango acordou para seu namoro à luz da lua, e se pôs a aguardar a chegada da amada. Nada da lua aparecer. Esperou uns minutos e nada. Trocou de posição e nada. Jogou umas pedras pra lá e nada. Nada da lua. E foi assim toda a noite sem lua.

Lá pelas quatro da manhã, quando alguns galos já trocavam berros, que o calango perdeu a compostura e desabou a chorar. Foi um desespero só:

-Onde está minha lua? Onde está minha amada? Nunca mais a verei? Não tirei nem fotografia. Oh, minha Lua, não me deixe.

Eis que a rainha do quintal, a árvore Dama-da-noite, presenciava todo o teatro sob a sua copa. Triste em ver o calango naquele desespero, a Dama-da-noite começou a fazer do terreiro o solo mais cheiroso de todo o planeta. E seu perfume tomava conta de tudo. E até mesmo das narinas do calango o perfume tomou conta. Era tão doce e tranqüilo aquele cheiro, que o calango, anestesiado e calmo, pôs se a dormir.

Quando raiou o dia, o perfume acabou. E como por mágica, nosso amigo calango acordou, e mal abriu as pálpebras, buscou no céu a presença de sua amada.

Quando, levantando a cabeça em rápidos movimentos, o calango-cor-de-mata viu o Sol, nosso astro rei, a clarear o céu azul, não se conteve e teve um pequeno desmaio.

Ao voltar a si, voltou a ver o sol, por quem foi arrebatado de uma imensa paixão.

A partir dali, o calango dormiu todas as noites sob o perfume da Dama-da-noite.

A partir dali, o calango cor de mata nunca mais deixou de amar o Sol.