03/02/2025

QUE VENHAM OS PIORES


Ao ler a página de Opinião do último dia 1º, tomei conhecimento do texto de autoria do advogado e jornalista J. O., “De poesia e poetas”, exemplo de pensamento bem articulado, mas simplista e sem maior análise.

O autor condenou em todo seu texto a proliferação descontrolada das publicações poéticas/literárias e o conseqüente aparecimento dos inevitáveis poetaços. Num tom que me fez lembrar de longe Mein Kampf, ele defendeu, citando Goethe, que “uma poesia deve ser excelente ou não existir de modo algum.”

Ora, quem é este que se arvora contra a carnavalização de nossa terra (cada vez mais mestiça), em favor de um arianismo literário? Seria o próprio autor um dos jurados a rotularem o que publicar no cenário cultural brasileiro?

A grande questão, não tão evidente, já que passou despercebida pelo nosso ácido crítico, é que o desenvolvimento tecnológico, somado à popularização de uma superficial cultura, tem levado sim! a facilitação da produção editorial, assim como à expressão de uma camada até há pouco distante do mundo das linhas impressas.

A tendência manifesta em nossos dias é sem dúvida a crescente existência de pequenos jornais, micro-editoras, rádios e TVs regionais, inúmeros autores alternativos, frutos de uma explosão benéfica da democracia. Agora, censurar esta mera existência não passa de um purismo retrógrado. Quem decidirá a permanência do status atingido pelo recém-chegado autor é o próprio processo social de escolha qualitativa, de decantação de valores sublimes. Esta função de peneira dos paradigmas literários de uma nação cabe ao organismo social, num trabalho lento de absorção/resposta, alheio a qualquer arbítrio individual.

Querer cortar a possibilidade do surgimento das mais diversas formas de expressão, ainda que capengas, cheira um pouco ao preconceito euclidiano, e foge muito ao bater latas do gênio Carlinhos Brown.

Num possível chavão: que venham os piores livros e versos, tão ruins que só mesmo o autor para citá-los.


Texto publicado no jornal O Estado de Minas

08/04/97