Um parente distante morreu e restaram algumas caixas de livros na casa da minha avó. Dentre eles estava um exemplar de Duas Águas, primeira edição da José Olympio. Foi neste livro que mergulhei por alguns dias e foi talvez meu primeiro contato real com a poesia. Claro, já havia lido poetas da escola e da família, mas nunca um poeta de toga, da capa ao fine.
Tão absorvido fiquei pelos textos que veio uma fixação pelo autor.
Meu pai era delegado de polícia federal no Rio de Janeiro e não foi difícil realizar um desejo meu: o telefone e endereço do poeta. Era na praia do Flamengo que ele morava e foi para lá que liguei certa noite, clandestinamente.
O telefone tocava e ninguém atendia.
Confiava na diligência do meu pai e sabia, portanto, que era só questão de tempo. Insisti tanto até que atenderam, ele atendeu.
Voz rouca, mas com uma cadência tranquila. Uma certa irritação invisível. Para mim foi um susto entre a interrupção do bip da companhia telefônica e o trovão que foi o timbre do João Cabral de Melo Neto. Nome imenso e resposta tão seca à minha pergunta:
- Falo com João Cabral de Melo Neto?
- Alô, o quê? Marly, atende aqui que eu não tenho paciência.
Conciso. Sem adjetivos. Simples e funcional como um telhado de duas águas.
Marly de Oliveira atendeu ao telefone. Carinhosa, conversamos alguns dias seguidos, já que ela permitiu que eu ligasse, sempre depois das 23:00 h, para falar sobre poesia do marido.
Li alguns poemas do livro que esboçava, ela fazia algumas críticas que esqueci.
Liguei até perceber que a aventura tinha sido esta e não havia mais nada.
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