05/09/2026

Minha Memória

Donde remonta minha primeira memória?

Donde vem a história que me sustenta?

Vem de um tapa de quem me afagava?

Vem da chegada de quem sempre se ausentava?

 

Qual é a minha primeira memória?

Efetiva, não história

Lembrada, não contada

Ralada, não fotografia


A que eu tenho como ferida ou saliva

Ou a que saía como gastura


Donde vem minha primeira memória 

crua?

 

Quem foi que permitiu que ela se apagasse?

Quanta injustiça cometi por não tê-la viva, nua.

 

Donde remonta meu primeiro gosto?

Vem do choque de quem eu frustrava?

De um abraço maldado?

De um paladar na casa da avó?

Foi moldado 

maldosamente por carinho?

Ou carinhosamente por maldade? 

 

Quem fui que permitiu que minha memória não fosse a minha história?

 

Lembro hoje da minha vida como um arremedo 

do que percebi e já não mais percebo.


Como se fosse um verbo cinza não aceso.


Esta seja talvez minha memória. 

20/08/2026

JOÃO E EMMA

            Não vou estar com o João em momento tão importante.

Chorei por isso, vou chorar no exato momento da transmissão da imagem.

Estou com o João a todo instante. Estive com ele durante cada vacina na infância, consultas, trocas de fralda, muitos tropeços, muita alegria, centenas de peças de lego montadas.

Soltamos muita pipa juntos, tomamos banhos de chuva, vi o primeiro acorde teimoso, revisei muitas redações (apaguei algumas, quis ter escrito outras), passeamos e vi o menino se tornar este homem fantástico, meu orgulho. Fui testemunha agraciada de seu crescimento.

Ah, João, eu te apresentei a Bossa Nova. Ainda no berçário do hospital cantarolei para você Doralice e bem que te disse.

Sempre foi inteligente e criativo. Não foram poucas as vezes em que as escolas premiaram o que já sabíamos.  

Mas, talvez, a grande virtude do João, ou o superpoder, como brinco com os meninos aqui em casa, seja saber escolher os amigos e se aproximar de pessoas especiais. Daí que, embora já tenha percorrido uma pequena parte do mundo, encontraria com certeza as melhores pessoas, os melhores amigos e não deu outra:

Encontrou a grande companheira, Emma, esta menina linda, inteligente e carinhosa.

Outra língua, outro clima, outra cultura, outra família e tanto em comum. É a sina da vida, como diria a Luísa, irmãzinha do João, ou no linguajar dela... a “silidavida”. João tem pais que o amam tanto e dois irmãos, Pedro e Luísa, para quem ele é um norte a seguir.

Não vou estar com o João neste momento, mas choro de alegria. Um prenúncio do mundo inteiro que se abre para a Emma e João nesta nova fase. Fase bem diferente, mas, sobretudo, instigante.

Agora vocês revisitarão muitos medos. Subirão muitas pedras e montanhas. Verão por que seus pais muitas vezes foram controle e limite. Serão controle e limite. Sofrerão por isso, mas a alegria de estar com uma pessoa amada ao lado, compartilhando a real intimidade, construindo uma família, símbolos, conquistas, não tem preço.

Vocês serão muito felizes!


Olha, acho que quero escolher uma música para tocar no casamento do João e Emma na Áustria. Pode ser em qualquer momento que vocês quiserem. Pode ser até mesmo depois da leitura deste texto de amor.

Amo você, Joãozinho.

Amo você, Emma linda!

Valsa Brasileira: Chico Buarque

https://open.spotify.com/track/04W23wLRLGvngo6wNjZZt8?si=8AWRvTEMR22enXWjxHzTiA&utm_source=whatsapp

            Ah, antes de terminar, um clássico do Joãozinho:

LINK PARA O VÍDEO


18/11/2025

O dedo da joaninha

    
Uma foto da joaninha no dedinho da Luísa... Era uma vez esta história que começou do fim. Mas, até começando pelo fim, o fim desta história acabaria por ser o começo... 
    Então posso dizer que era uma vez o início da história da joaninha. De uma joaninha que perambulava pelo jardim sem vontade nenhuma, sem rumo. Mas por ali estava uma menina e seu dedo compridinho e um sorriso aberto. O dedo parecia apontar uma primeira estrela, dizer "presente!" ou indicar um caminho. Mas aquele dedo da menina estendido ali no jardim da joaninha tinha um diferente propósito. O dedo tinha um desejo imenso de encontrar ... a joaninha. 
     Inevitavelmente, a joaninha distraída encontrou o dedo e a história da menina. Ajeitou as antenas, assustada, deu uma piscadela e, dali em diante, passou a ser o desejo da joaninha subir no dedo dela.
        Com felicidade e um pouco de gastura de cada lado, o dedo da menininha e as patinhas da joaninha estavam juntinhas, plantadas numa só fotografia, fazendo cócegas e batendo asas. 

14/11/2025

AFAGO


Trago a palavra afago

     como um móbile

        meus dedos talvez a quebrem

           meus beijos talvez a furem


meus lábios talvez a fumem

trago a palavra afago.


  trago a palavra afago

    com os olhos fechados 

      com desenhos de sombras de luz

talvez apenas abra os olhos


  a palavra afago é uma amiga

    uma pedra, uma entrega

      em que me desprendo 


despenco


a palavra afago é um interruptor de mim

afago apago 

  afago apago 

    afago


é intuitivo me afogar neste momento


é um desejo morrer de afago

a fogo

afogo.

25/02/2025

DOIS FAMOSOS ANJOS

 

Por dois tempos

Vi os anjos
Em meus ouvidos.

Estava andando aqui
E um deles repetiu
“Albert Camus!”

Fiquei tranquilo
E sem saber o que era aquilo
Escutei o segundo zumbido:

“Não serás nunca um canhoto no mundo.”

21/02/2025

PEPITA

Na serra pelada

de meu peito

garimpo e quebro pedra

atrás de rara palavra

13/02/2025

AQUI

 


D
ecidi que quando crescer

Não quero ser gente grande

Vou ficar para sempre aqui

Nesta infância

 

Coronel bigode

Com o dedo em riste

Reclama e reclama

 

Quem fica triste

Se ele cai

De bunda na lama?

 

Ouro

Quintal com cheiro de chuva
Boca com gosto de manga

Ninguém tira ou arranca

O CALANGO E A DAMA-DA-NOITE

No centro do quintal da Vó Zelda havia uma árvore espetacular. Ali no mundo tudo girava em torno daquela frondosa Dama-da-noite. Suas folhas eram veludo, seu tronco curto e forte como a certeza e a copa formava um giro sublime. E era embaixo dessa realeza de planta que morava, junto a um montinho de pedras, um calango. Um calango da cor de uma mata. Um calango que, por capricho da natureza ou artimanhas do coração, nunca dormia à noite.

12/02/2025

Tenho medo.

Papai, não quero sonhar.

Pega meu sonho para você?

Quando eu acordar você me devolve?

LIVROS

Desordem

É só vir para casa
Que os poetas todos saem da estante

A fileira alfabética deixa lugar para um rastro de satisfação impossível de curiosidades

?

A poesia me permite visitar um espaço não pensado por Deus

PEDACINHO


A formiga é um brinquedo

Que corre

Ou tijolo que soma
Ou barquinho que some
Ou mínimo sorriso

É companheira disso
Desse cortiço de cores
Dessa cachoeira insubmissa

11/02/2025

Do mundo

Ganhei a palavra água
Pronta e arredondada

Ganhei outras sacolas
E coisas fáceis de carregar pela boca

O que tento fazer com meus acentos
É fugir des conforto

ORAÇÃO A SÃO JORGE

 

"(...) Eu andarei vestido e armado com as armas de Jorge, para que meus inimigos (...)"

Que meus inimigos, tendo olhos, não me enxerguem,
Que seus olhos se ofusquem e
Percebam que há mais no mundo do que minha queda.

E percebam que minha queda
É um instante de experiência,
E que, junto a eles, eu tudo engulo.