24/01/2025

APROPRIAÇÃO

O celular roubou meu nome, minha identidade, meu retrato.

 

O celular roubou minhas noites

Roubou o susto da lua, o medo das luzes fracas da cidade

Roubou meu encantamento pela dura arquitetura e por sua inexistência

 

O celular veio e roubou as brincadeiras, o toque

Roubou o erro e até os atritos que acabavam em discussões

Roubou a sensação de ter um abraço, os olhares nos fundos dos olhos

 

Roubou a mesa, os jogos, a leitura e o tricô

Roubou minha letra e a necessidade de me fazer entendido

 

O celular roubou o filme em família, as poções de pipoca

Roubou a brincadeira contínua

A conversa contínua

O ócio contínuo e em família

 

O celular veio e roubou a poesia

Transformou tudo em shorts e insignificâncias vazias

Dividiu meu dia em pequenos pedaços desconexos

 

O celular roubou o poema de João Cabral de Melo Neto

Triturou tudo de amor que havia ali

E cuspiu este reels


 

Esta é um apropriação do poema Os Três Mal-Amados de João Cabral de Melo Neto, fala de Joaquim, Duas Águas.