O celular roubou meu nome, minha identidade, meu retrato.
O celular roubou minhas noites
Roubou o susto da lua, o medo das luzes fracas da cidade
Roubou meu encantamento pela dura arquitetura e por sua
inexistência
O celular veio e roubou as brincadeiras, o toque
Roubou o erro e até os atritos que acabavam em discussões
Roubou a sensação de ter um abraço, os olhares nos fundos
dos olhos
Roubou a mesa, os jogos, a leitura e o tricô
Roubou minha letra e a necessidade de me fazer entendido
O celular roubou o filme em família, as poções de pipoca
Roubou a brincadeira contínua
A conversa contínua
O ócio contínuo e em família
O celular veio e roubou a poesia
Transformou tudo em shorts e insignificâncias vazias
Dividiu meu dia em pequenos pedaços desconexos
O celular roubou o poema de João Cabral de Melo Neto
Triturou tudo de amor que havia ali
Esta é um apropriação do poema Os Três Mal-Amados de João
Cabral de Melo Neto, fala de Joaquim, Duas Águas.