25/02/2025

DOIS FAMOSOS ANJOS

 

Por dois tempos

Vi os anjos
Em meus ouvidos.

Estava andando aqui
E um deles repetiu
“Albert Camus!”

Fiquei tranquilo
E sem saber o que era aquilo
Escutei o segundo zumbido:

“Não serás nunca um canhoto no mundo.”

21/02/2025

PEPITA

Na serra pelada

de meu peito

garimpo e quebro pedra

atrás de rara palavra

13/02/2025

AQUI

 


D
ecidi que quando crescer

Não quero ser gente grande

Vou ficar para sempre aqui

Nesta infância

 

Coronel bigode

Com o dedo em riste

Reclama e reclama

 

Quem fica triste

Se ele cai

De bunda na lama?

 

Ouro

Quintal com cheiro de chuva
Boca com gosto de manga

Ninguém tira ou arranca

O CALANGO E A DAMA-DA-NOITE

No centro do quintal da Vó Zelda havia uma árvore espetacular. Ali no mundo tudo girava em torno daquela frondosa Dama-da-noite. Suas folhas eram veludo, seu tronco curto e forte como a certeza e a copa formava um giro sublime. E era embaixo dessa realeza de planta que morava, junto a um montinho de pedras, um calango. Um calango da cor de uma mata. Um calango que, por capricho da natureza ou artimanhas do coração, nunca dormia à noite.

12/02/2025

Tenho medo.

Papai, não quero sonhar.

Pega meu sonho para você?

Quando eu acordar você me devolve?

LIVROS

Desordem

É só vir para casa
Que os poetas todos saem da estante

A fileira alfabética deixa lugar para um rastro de satisfação impossível de curiosidades

?

A poesia me permite visitar um espaço não pensado por Deus

PEDACINHO


A formiga é um brinquedo

Que corre

Ou tijolo que soma
Ou barquinho que some
Ou mínimo sorriso

É companheira disso
Desse cortiço de cores
Dessa cachoeira insubmissa

11/02/2025

Do mundo

Ganhei a palavra água
Pronta e arredondada

Ganhei outras sacolas
E coisas fáceis de carregar pela boca

O que tento fazer com meus acentos
É fugir des conforto

ORAÇÃO A SÃO JORGE

 

"(...) Eu andarei vestido e armado com as armas de Jorge, para que meus inimigos (...)"

Que meus inimigos, tendo olhos, não me enxerguem,
Que seus olhos se ofusquem e
Percebam que há mais no mundo do que minha queda.

E percebam que minha queda
É um instante de experiência,
E que, junto a eles, eu tudo engulo.

10/02/2025

Perdi hora na tentativa de um poema sobre a Av. Afonso Pena. Meu olhar foi seco demais e dos versos nem as cores valeram a pena. A tentativa de um poema, junto com outras milhões de, poderiam formar um universo paralelo dos rascunhos e croquis malsucedidos.

NÓ NO ACASO

Tarefa de hoje: definir o “nó no acaso”.

Descobri este atalho num dia em que o celular falhava, a caixa de email não abria, as pessoas não estavam, quem me queria mostrou alheamento, o pneu do carro furou e tudo apresentava uma dificuldade de conexão do século passado. Se persistisse na labuta de servente de pedreiro, quebrando aquele muro que o acaso me apresentava, não iria longe. 

GOLZINHO

Ontem (bem ontem...) Joãozinho deu um chute

E a bola fez só o que ele queria

Foi gol por todos os cantos

Os meninos gritando que golaço!
Enquanto eu percebia o gol
Pelos sorrisos e mãos abanando

08/02/2025

SABIÁ

Sabiá, todo mundo conhece

Todo mundo soletra
Sabiá é fácil

Se fosse assim como o Sabiá
Ficaria me olhando
Facilmente

Sabiá é um bicho lá fora

06/02/2025

E SOBRE O LIXO?

Amigo poeta

Já pensou em escrever algo singelo sobre o lixo?

E sobre o Trump?

Já tentou cantar algum poema sobre a covardia?

Cada dia uma manchete, uma bravata

E sobre o Trump?

Basta ser um homem branco de gravata

Para redesenhar o mapa e vender

como idiossincrasia?

03/02/2025

PIPA

 

    Todos os pingos são pipas e o sol é pipa e a água molha a pipa que não sobe e o papai solta pipa e tudo tem que ser pipa porque pipa é cor e é lindo e é brincadeira sem fim que o vento leva e traz sorriso e a pipa sobe e desce como se fosse um pássaro um balão e tudo que vi até hoje descer sob meus olhos que são duas pipas que dão linha e dançam e são verdes vermelhos e amarelo verde e azul e preta e cadê a pipa papai?

QUE VENHAM OS PIORES


Ao ler a página de Opinião do último dia 1º, tomei conhecimento do texto de autoria do advogado e jornalista J. O., “De poesia e poetas”, exemplo de pensamento bem articulado, mas simplista e sem maior análise.

O autor condenou em todo seu texto a proliferação descontrolada das publicações poéticas/literárias e o conseqüente aparecimento dos inevitáveis poetaços. Num tom que me fez lembrar de longe Mein Kampf, ele defendeu, citando Goethe, que “uma poesia deve ser excelente ou não existir de modo algum.”

BARQUINHO MENINO

Era a vez de um barquinho, da cor da flor mais linda. E todos viam o barquinho em alto mar, sem pirata ou marinheiro, a marejar no horizonte. E todos não sabiam da existência do menino capitão, que existia no barquinho a conduzir o leme. Do lado avesso do barquinho, lá no convés do contrário, onde olhos não viam, ele permaneceu existindo por toda a vida. E de lá desse lugar imaginável, viu a noite por inteiro, viu o dia derramar, e viu o sol ser uma laranja. O mar foi lágrima boa de sua vida. Seus pés sempre tiveram uma bacia para tempos quentes. Mas os milhões de turistas da praia não sabiam de seus dias. E suas conquistas foram atribuídas ao vento, seus tormentos foram tidos como ranger do casco, seu sorriso foi confundido com rasgar de velas. Quando cansou de ser tudo isso que contei, sem despedida ou tempestade, mergulhou num naufrágio de brisa.