Por dois tempos
Em meus ouvidos.
Estava andando aqui
E um deles repetiu
“Albert Camus!”
Fiquei tranquilo
E sem saber o que era aquilo
Escutei o segundo zumbido:
Por dois tempos
No centro do quintal da Vó Zelda havia uma árvore espetacular. Ali no mundo tudo girava em torno daquela frondosa Dama-da-noite. Suas folhas eram veludo, seu tronco curto e forte como a certeza e a copa formava um giro sublime. E era embaixo dessa realeza de planta que morava, junto a um montinho de pedras, um calango. Um calango da cor de uma mata. Um calango que, por capricho da natureza ou artimanhas do coração, nunca dormia à noite.
Desordem
"(...) Eu andarei vestido e armado com as armas de Jorge, para que meus inimigos (...)"
Que meus inimigos, tendo olhos, não me enxerguem,
Que seus olhos se ofusquem e
Percebam que há mais no mundo do que minha queda.
E percebam que minha queda
É um instante de experiência,
E que, junto a eles, eu tudo engulo.
Descobri este atalho num dia em que o celular falhava, a caixa de email não abria, as pessoas não estavam, quem me queria mostrou alheamento, o pneu do carro furou e tudo apresentava uma dificuldade de conexão do século passado. Se persistisse na labuta de servente de pedreiro, quebrando aquele muro que o acaso me apresentava, não iria longe.
Ontem (bem ontem...) Joãozinho deu um chute
E a bola fez só o que ele queria
Foi gol por todos os cantosAmigo poeta
Já pensou em
escrever algo singelo sobre o lixo?
E sobre o
Trump?
Já tentou
cantar algum poema sobre a covardia?
Cada dia uma
manchete, uma bravata
E sobre o
Trump?
Basta ser um
homem branco de gravata
Para redesenhar
o mapa e vender
como idiossincrasia?
Ao ler a página de Opinião do último dia 1º, tomei conhecimento do texto de autoria do advogado e jornalista J. O., “De poesia e poetas”, exemplo de pensamento bem articulado, mas simplista e sem maior análise.
O autor condenou em todo seu texto a proliferação descontrolada das publicações poéticas/literárias e o conseqüente aparecimento dos inevitáveis poetaços. Num tom que me fez lembrar de longe Mein Kampf, ele defendeu, citando Goethe, que “uma poesia deve ser excelente ou não existir de modo algum.”
Era a vez de um barquinho, da cor da flor mais linda. E todos viam o barquinho em alto mar, sem pirata ou marinheiro, a marejar no horizonte. E todos não sabiam da existência do menino capitão, que existia no barquinho a conduzir o leme. Do lado avesso do barquinho, lá no convés do contrário, onde olhos não viam, ele permaneceu existindo por toda a vida. E de lá desse lugar imaginável, viu a noite por inteiro, viu o dia derramar, e viu o sol ser uma laranja. O mar foi lágrima boa de sua vida. Seus pés sempre tiveram uma bacia para tempos quentes. Mas os milhões de turistas da praia não sabiam de seus dias. E suas conquistas foram atribuídas ao vento, seus tormentos foram tidos como ranger do casco, seu sorriso foi confundido com rasgar de velas. Quando cansou de ser tudo isso que contei, sem despedida ou tempestade, mergulhou num naufrágio de brisa.