22/08/2022

ABALO

Aqui dentro continuo em obras


Fazendo um puxadinho de entendimento
Plantando jardins nas sacadas

E também uma calha para escoar lágrimas

Vou rebocar a mentira de que digo lágrimas
Projetar uma viga firme que me sustente

Depois vou esperar pacientemente

eu

me desintegrar
Com o vento, a chuva e o sol
Ou de repente
Com um tremor sísmico
Que cisme em me derrubar daqui

Vou me despencar abraçado em alguma brisa

19/08/2022

SÉRIO? SERÍSSIMO? SERÚSSO? SERIAÇO? SÉRIO-TIRANOSSAURO-REX?

      Perto da casa do menino havia uma grande obra. Como estávamos no meio da pandemia, só poderíamos agradecer muito ao prefeito por trazer esta diversão para aqui bem embaixo de nossa janela. Realmente se revelava uma ação de uma generosidade ímpar. 

Logo pela manhã, os monstros de metal já começavam seus barulhos. Eram tratores enormes, patrolas, caminhões pipas, rolos compressores e outras máquinas que nem sabíamos ensinar os nomes.  

A obra era no viaduto do complexo Carlos Drummond de Andrade e virou rotina da família, à tardezinha, paralisar o trabalho e fazer um passeio para aquele safari urbano e de ferro. O menino lindo viajava com a visão das máquinas, se empolgava, vibrava e o dia começava mais ou menos assim:

Às 7:30 h da manhã: 

- Hoje nós vamos ver a obra? Não é? Sério? Seríssimo? Serússo? Seriaço? Sério-tiranossauro-rex? 

Era o jeito dele de nos arrancar um contrato inquebrantável.

17/08/2022

JACARÉ VERSUS SEU HUGO DAS SOBRINHAS

 

Fiquei sabendo que não é verdade que vovô escreveu o hino do Democrata de Sete Lagoas. Junto com os brinquedos de sucatas que ele fazia, das beliscadas de formiga que nos dava, também a memória tinha este registro. Se fosse verdade, o google diria. Não diria?

Então quero fazer justiça com o Seu Hugo e deixar seu nome voando por aqui: foi ele quem me mostrou o time certo para amar, foi ele quem nadou contra a correnteza da avançada idade e decidiu nos acompanhar até ao jogo Galo versus Democrata de Sete Lagoas, lá pelos idos de minha infância. À época, não existia o atual estádio conhecido como Arena do Jacaré (mascote do Democrata), e o campo de então quase dividia muro com a casa de meus avós.

Naquele domingo, passamos (eu e meu pai) pela roleta com o meu avô e fomos nos sentar nas arquibancadas repletas de fanáticos pelo esporte. Mal sentamos (eu já pensava no picolé de brinde) e a torcida vermelha e interiorana do democrata entoava para todos ouvirem:

- “Ahaha uhuh ô atleticano eu vou...”

E por aí foi a rima das palavras de baixo calão, desaguando nos córregos mais imundos das ofensas.

16/08/2022

O QUE É DO HOMEM, BICHO NÃO COME

     Só nós três acreditávamos na apreensão da carga. O resto da equipe já tinha voltado pra casa que o mato estava fazendo mal. Alimentar-se em qualquer canto, dormir em banco de carro, no primeiro dia tem até graça, mas depois de uma semana é uma dor incômoda e o corpo parece que fica dobrado. Eu mesmo já não aguentava roçar a mão no rosto e perceber a barba irregular crescente, a ausência de uma higiene completa e demorada.

Mas estávamos com fé, apesar dos indícios desfavoráveis. 

Ao meu lado R. e M. tinham uma vontade incrível e sabíamos que agora a vitória seria ainda mais saborosa, compartilhada com poucos resilientes (para usar uma palavra que caiu no gosto e vocabulário policial).

Na verdade, tinha restado somente a zaga: 

R. é bicho de montanha, dorme em qualquer mato e parece que não percebe o frio. Se deixarem, busca a solidão com um qualquer barco em beira de rio. Hoje tem deixado uma barba grande, uma cara de mal, um verdadeiro hipster

OUTRO

O outro é feito desta matéria gosmenta

também conhecida como eu.

 

A hora é feita desta substância que arde e passa.

 

O outro arde e fica numa colagem que suporto.

 

Sou eu e o outro no espelho.

15/08/2022

MELANCOLIA – RESENHA DO FILME – SÓ LEIA SE ASSISTIR


Hoje estou esquisito e acho que é efeito do filme de Lars Von Trier. “Melancolia” ainda está ricocheteando e espero que o tiro durma um dia, seco e no alvo. Ou espero talvez que eu esteja preparado para a mensagem e que meus anticorpos da estagnação a envolvam numa ostra segura e confortável, tal como fizeram com escritores alemães e russos (sempre traduzidos), e a ponha pra dormir. Do contrário, terei que digerir o “Melancolia”, filme que ainda está aqui em queda livre.

Foi com suave maldade que me regozijei com a noiva do filme Justine (Kirsten Dunst) espatifando todas as regras de uma cerimônia de casamento cara e com hora marcada, numa fazenda com 18 buracos no campo de golfe.

14/08/2022

CRENTE

Maria

Praticante em demasia

Deixou uma torre de roupas sujas 

Alcançar os céus. 

13/08/2022

RELATO SOB O OUTONO

Era quase esquina com Rua Rubem Fonseca quando um policial à paisana cruzou meu caminho. A trombada foi ligeira, mas como eu corria muito e ventava muito e muito estranhos eram meus movimentos, o policial desocupado passou a seguir-me.

Corríamos, um atrás do outro. Ele, com intuito de desvendar meus delitos; eu, buscando um ninho que me abraçasse.

Quanto mais corria, mais seus pés de homem com tempo engoliam meus segundos. De vez em quando, meus olhos lançavam olhadelas e ardiam (areavam-se), por pouco não cerrando as janelas.

12/08/2022

TUDO EM ORDEM

                        Sobre o dia em que invadi o quarto do João sem aviso. 


Estava com a consciência andando de um lado para o outro e resolvi entrar no quarto dele. Comecei a arrumar gavetas, colocar as coisas em pilhas e minimizar as dobras de panos. 

Passei o aspirador de pó e comprei nova pasta de plástico, que aquela estava no fim. 

Depois do ensaio, saltei sobre os cadernos e livros. Sabia, por experiência, que são páginas marginais, muitas vezes, as últimas, algumas vezes, páginas esquecidas pelo meio da brochura, o depósito de pequenas fugas, alguns crimes e rebeliões.

11/08/2022

MEDO

Começo o poema pedindo para que ouça ao fundo a música “Na hora do Almoço” de Belchior. Agora, com um volume que não atrapalhe a leitura, perceba: 


10/08/2022

COSTURA


É impressionante como venho vestindo com justeza as roupas de meu falecido pai.

A gravata estrita

As calças que ajustam os passos

As camisas com desenvoltura nos punhos.


Tenho apertado mais mãos depois de sua morte.


Às vezes me surpreendo ocupando seu vulto.

O tempo e a saudade vem cozendo um modelo fino de ausência.

A memória frouxa vem apertando cada medida minha que não se amolda.

Pai, de quem são estas mãos?

ESTOPIM


Quando você

Me chama 
Acende um sorriso







09/08/2022

DONA ALBA HALLOWEEN

 

Dona Alba era uma senhora de longos cabelos brancos, que habitualmente vestia calça e blusa brancas, sapato branco e sempre ostentava uma varinha de metal nas mãos.

Descia do ônibus que chegava ao bairro por volta das seis da tarde e sempre a esperávamos, quase escondidos, prontos para o grito.

Era a Dona Alba apontar na soleira do coletivo para a turma soltar o berro:

-Dona Alba Halloween! – num bullying irresponsável.

Ela encarava a gente, falava uns impropérios, fazia diversos desenhos com a varinha no chão, e era o bastante para nos deixar morrendo de medo.

Outro menino gritava:

- Dona Alba Pomba Branca! – numa afronta desrespeitosa.

08/08/2022

TEMPORAL

             


Há uma caixa plástica no quarto do João com dezenas de fotografias. Há registros de momentos de sua infância, de gambiarras de brinquedo, de passeios a cavalo, há uma roda de quadrilha barulhenta, há luzes de um jogo de videogame, há a altura da ponte do Brooklyn, os rodopios da bicicleta, o voo de pipas e uma chuva torrencial.

Os sorrisos que há na caixa de plástico do quarto do João chegam a levantar a tampa e ameaçar as prateleiras.

No meio das fotos da infância do João há também meia dúzias de fotos de minha infância. Estão perdidas por ali, fazendo uma junção de tempo impensável. Ali, de alguma forma, somos meninos, moleques contemporâneos.

UM BEIJO


Um beijo:

Snorkel
O toque: Mergulho

Noite desperta:

Snorkel



Dia se entrega: Mergulho


Toco cores: Snorkel


Viva em bronze: Mergulho
Só imagino: Snorkel
Nós no mundo: Mergulho
Estou a salvo: Snorkel

Estou a salvo? Mergulho

07/08/2022

O DESCANSO DE MINHA RETINA


  
Creio que um velho amigo ficou louco. Ou assim aconteceu, ou, mais do que amigo meu, o desvirtuado é um grande piadista. Imaginem que agora passo remoendo meus sagrados vinte e cinco minutos no ônibus (em dias sem azar e chuva) com uma só ideia dele, do doido: que o ofício da leitura no coletivo causa o anárquico mal do deslocamento da retina.

    Contesto sua ideia com força de mula. E até mesmo digo que de nada mais se trata do que simples boato de incultos.

Vinte e cinco minutos de ida, vinte e cinco minutos de volta, e lá se vão porções imensas furtadas da minha vida.

Que fazer se a própria retina clama descanso nas páginas de um bom livro?

Além da necessidade que me abate, além do desperdício cronológico contra o qual luto, um outro maciço argumento: se o deslocamento realmente nos ferisse em ferinas cutiladas, traumáticos empurrões, o que seria, meu Deus, desses milhares de evangélicos, que outra coisa não fazem senão ler, ler e ler os sagrados textos, onde quer que lhes apareçam? Se é que leem e não fazem um santo disfarce.

Por outra, e o destino – já per si incerto – dos perenes vestibulandos de nossa capital, os quais, quando não leem, despistam, numa possível falsa erudição (por favor, perdoem minha língua), invejada pelos tantos quantos intelectuais encantoados pela cidade.

Uma observação: há algo mais erudito do que um destemido vestibulando com seu um só volume em punho? “Temo o homem de apenas um livro”, poderão citar.

Está dito. Ainda que me apresentem teses, provando os reais malefícios da leitura indigesta, empaco.

Ainda que sofra sintomas que me contrariem, empaco.

O que não me apraz é perder este tempo de joia, a não ser com alguma seletas e trêmulas linhas. Pois, num chavão, mais vale um livro na mão que meu tempo pela janela.