Era o início da pandemia. Se bem que, de tanto que a quarentena se estendeu, a gente
acabou perdendo a noção de início, meio e fim. Mas o certo é que as rotinas
começavam a mudar, o menino estava longe da escola e dos amigos e
começava a dar nas pernas e nos braços uma sensação de que era preciso fazer
alguma coisa.
O menino nunca
ouvira falar que fungos, musgos e folhas pudessem aparecer nas pessoas e
transformar a cidade numa enorme e multicolorida floresta tropical, mas a
hipótese a este ponto nem era descabida, tamanha era a proporção da inércia de
todos, parados ali como troncos indecisos.
A frase que mais se ouvia e que a
família do menino seguia à risca era #fiqueemcasa, assim, com hastag,
para parecer uma tatuagem.
Pois bem, o menino, obediente
que só ele, soube ler o mandamento e não viu em nenhum lugar da frase o
impedimento de levar baldes de água para o quarto.
#fiqueemcasa não contraditava com
#baldesnoquarto e, de certa forma, até mesmo auxiliava aquela tarefa difícil de
se estagnar num apartamento de capital.
#fiqueemcasa não trazia uma
proibição de se imaginar, com auxílio necessário de muita água, num arquipélago
privilegiado da costa brasileira.
Decidido, foi assim que o menino encheu o primeiro balde e passou pela sala a caminho do quarto. Aproveitou-se do descuido momentâneo do pai, que, agora em home office, parecia mergulhado no computador, e foi começar a aventura.
Eram muitos bichos marinhos naquele quarto: baleia, tubarão martelo, golfinhos, peixinhos pequenos, peixões, tartarugas marinhas e alguns dragões (ops!) que no parecer do menino pareciam gostar de água.
Não seria justo lançar o #fiqueemcasa
para aquela parcela considerável da fauna marinha sem o essencial, a óbvia
quantidade equivalente de água.
E o menino pegou o segundo balde.
E o menino passou de levinho
perto do pedacinho do novo escritório improvisado do pai com o terceiro, quarto
e quinto baldes.
Um observador se perguntaria se os
tantos litros de água coletados já não seriam suficientes para formar aquele
trecho menor do oceano atlântico, enchendo todo o quarto.
Outro observador talvez tivesse visto
de esgueira o que o pai desatento só viu quando era tarde demais.
E quando o distraído pai viu e ouviu a
presença da água no apartamento à fora, em corredeiras, veio o grito, na forma
de uma bronca severa, quase um urro:
- Que chão molhado é este? Meu
Deus do céu!!!!
Diante do susto, o pai não teve outra
opção senão deixar o computador na mesa (agora, vítima fácil da
irmãzinha mais nova do menino) e correr pelo corredor, abrindo de supetão a
porta do quartinho.
- Meu Deus! - foram por minutos as
últimas palavras do pai, que se viu engolido por uma onda gigante.
Os brinquedos convencionais,
carrinhos, instrumentos musicais, bonecas e peças de montar boiavam sobre o
mar, numa profusão de cores bonita de se ver.
Os brinquedos marinhos, estes, com um
sorriso escondido sob a camada fina de plástico, eram cúmplices do menino.
Algumas almofadas, parece que pelo
efeito do isopor ou da bagunça, afundavam e voltavam a flutuar.
Havia pequenas ondas que impediam a
visão perfeita daquele húmido carnaval.
O pai, recuperado o fôlego do choque,
gritou pelo menino e deu algumas braçadas nadando até a cama, onde se
encontraram. Pularam os dois, o pai e o menino, no cesto de brinquedo que
flutuava e esperaram atônitos a água escorrer pela porta aberta e a maré baixar
naquele quarto.
Maré baixa, os brinquedos e objetos
sedimentados sobre o chão, todos com uma película inesquecível de água, foi
hora da bronca:
- Onde já se viu trazer água, tanta
água para o quarto, menino?
O menino, educado, daqueles que secam
entre os dedinhos do pé depois do banho, pedem para escovar os dentes e lavam
as mãos sempre que suspeitam, argumentou:
- Mas, papai, criança brinca. Amanhã
posso brincar de novo?
O pai olhou para o filhote ainda
encharcado e, com a necessidade de educar, declarou:
- Com água, não, Pedro! Amanhã é a vez
dos bichinhos que voam.
