15/08/2022

MELANCOLIA – RESENHA DO FILME – SÓ LEIA SE ASSISTIR


Hoje estou esquisito e acho que é efeito do filme de Lars Von Trier. “Melancolia” ainda está ricocheteando e espero que o tiro durma um dia, seco e no alvo. Ou espero talvez que eu esteja preparado para a mensagem e que meus anticorpos da estagnação a envolvam numa ostra segura e confortável, tal como fizeram com escritores alemães e russos (sempre traduzidos), e a ponha pra dormir. Do contrário, terei que digerir o “Melancolia”, filme que ainda está aqui em queda livre.

Foi com suave maldade que me regozijei com a noiva do filme Justine (Kirsten Dunst) espatifando todas as regras de uma cerimônia de casamento cara e com hora marcada, numa fazenda com 18 buracos no campo de golfe.

14/08/2022

CRENTE

Maria

Praticante em demasia

Deixou uma torre de roupas sujas 

Alcançar os céus. 

13/08/2022

RELATO SOB O OUTONO

Era quase esquina com Rua Rubem Fonseca quando um policial à paisana cruzou meu caminho. A trombada foi ligeira, mas como eu corria muito e ventava muito e muito estranhos eram meus movimentos, o policial desocupado passou a seguir-me.

Corríamos, um atrás do outro. Ele, com intuito de desvendar meus delitos; eu, buscando um ninho que me abraçasse.

Quanto mais corria, mais seus pés de homem com tempo engoliam meus segundos. De vez em quando, meus olhos lançavam olhadelas e ardiam (areavam-se), por pouco não cerrando as janelas.

12/08/2022

TUDO EM ORDEM

                        Sobre o dia em que invadi o quarto do João sem aviso. 


Estava com a consciência andando de um lado para o outro e resolvi entrar no quarto dele. Comecei a arrumar gavetas, colocar as coisas em pilhas e minimizar as dobras de panos. 

Passei o aspirador de pó e comprei nova pasta de plástico, que aquela estava no fim. 

Depois do ensaio, saltei sobre os cadernos e livros. Sabia, por experiência, que são páginas marginais, muitas vezes, as últimas, algumas vezes, páginas esquecidas pelo meio da brochura, o depósito de pequenas fugas, alguns crimes e rebeliões.

11/08/2022

MEDO

Começo o poema pedindo para que ouça ao fundo a música “Na hora do Almoço” de Belchior. Agora, com um volume que não atrapalhe a leitura, perceba: 


10/08/2022

COSTURA


É impressionante como venho vestindo com justeza as roupas de meu falecido pai.

A gravata estrita

As calças que ajustam os passos

As camisas com desenvoltura nos punhos.


Tenho apertado mais mãos depois de sua morte.


Às vezes me surpreendo ocupando seu vulto.

O tempo e a saudade vem cozendo um modelo fino de ausência.

A memória frouxa vem apertando cada medida minha que não se amolda.

Pai, de quem são estas mãos?

ESTOPIM


Quando você

Me chama 
Acende um sorriso







09/08/2022

DONA ALBA HALLOWEEN

 

Dona Alba era uma senhora de longos cabelos brancos, que habitualmente vestia calça e blusa brancas, sapato branco e sempre ostentava uma varinha de metal nas mãos.

Descia do ônibus que chegava ao bairro por volta das seis da tarde e sempre a esperávamos, quase escondidos, prontos para o grito.

Era a Dona Alba apontar na soleira do coletivo para a turma soltar o berro:

-Dona Alba Halloween! – num bullying irresponsável.

Ela encarava a gente, falava uns impropérios, fazia diversos desenhos com a varinha no chão, e era o bastante para nos deixar morrendo de medo.

Outro menino gritava:

- Dona Alba Pomba Branca! – numa afronta desrespeitosa.

08/08/2022

TEMPORAL

             


Há uma caixa plástica no quarto do João com dezenas de fotografias. Há registros de momentos de sua infância, de gambiarras de brinquedo, de passeios a cavalo, há uma roda de quadrilha barulhenta, há luzes de um jogo de videogame, há a altura da ponte do Brooklyn, os rodopios da bicicleta, o voo de pipas e uma chuva torrencial.

Os sorrisos que há na caixa de plástico do quarto do João chegam a levantar a tampa e ameaçar as prateleiras.

No meio das fotos da infância do João há também meia dúzias de fotos de minha infância. Estão perdidas por ali, fazendo uma junção de tempo impensável. Ali, de alguma forma, somos meninos, moleques contemporâneos.

UM BEIJO


Um beijo:

Snorkel
O toque: Mergulho

Noite desperta:

Snorkel



Dia se entrega: Mergulho


Toco cores: Snorkel


Viva em bronze: Mergulho
Só imagino: Snorkel
Nós no mundo: Mergulho
Estou a salvo: Snorkel

Estou a salvo? Mergulho

07/08/2022

O DESCANSO DE MINHA RETINA


  
Creio que um velho amigo ficou louco. Ou assim aconteceu, ou, mais do que amigo meu, o desvirtuado é um grande piadista. Imaginem que agora passo remoendo meus sagrados vinte e cinco minutos no ônibus (em dias sem azar e chuva) com uma só ideia dele, do doido: que o ofício da leitura no coletivo causa o anárquico mal do deslocamento da retina.

    Contesto sua ideia com força de mula. E até mesmo digo que de nada mais se trata do que simples boato de incultos.

Vinte e cinco minutos de ida, vinte e cinco minutos de volta, e lá se vão porções imensas furtadas da minha vida.

Que fazer se a própria retina clama descanso nas páginas de um bom livro?

Além da necessidade que me abate, além do desperdício cronológico contra o qual luto, um outro maciço argumento: se o deslocamento realmente nos ferisse em ferinas cutiladas, traumáticos empurrões, o que seria, meu Deus, desses milhares de evangélicos, que outra coisa não fazem senão ler, ler e ler os sagrados textos, onde quer que lhes apareçam? Se é que leem e não fazem um santo disfarce.

Por outra, e o destino – já per si incerto – dos perenes vestibulandos de nossa capital, os quais, quando não leem, despistam, numa possível falsa erudição (por favor, perdoem minha língua), invejada pelos tantos quantos intelectuais encantoados pela cidade.

Uma observação: há algo mais erudito do que um destemido vestibulando com seu um só volume em punho? “Temo o homem de apenas um livro”, poderão citar.

Está dito. Ainda que me apresentem teses, provando os reais malefícios da leitura indigesta, empaco.

Ainda que sofra sintomas que me contrariem, empaco.

O que não me apraz é perder este tempo de joia, a não ser com alguma seletas e trêmulas linhas. Pois, num chavão, mais vale um livro na mão que meu tempo pela janela.

05/08/2022

UERÊ – NA LINHA DE TIRO DO GATE


Foi com o GATE – Grupamento de Ações Táticas Especiais da Polícia Militar de Minas Gerais que fizemos treinamento naqueles dias. Era época de lançamento do Tropa de Elite I, e, de alguma forma, aquele filme, ainda que não intencionalmente, mexeu com o brio da polícia.

Longe de mim dizer que este aspecto foi positivo, mas é certo que estavam todos mais alertas, dispostos ao embate e cada um querendo trazer para si alguma revolta do capitão Nascimento ou a disposição do aspirante Neto. Eram comuns sessões de polícias para ver e comentar o filme. Algumas falas épicas da película passaram, desde então, a fazer parte da gíria operacional.

Foi neste contexto que eu me vi naquela linha de tiro, num estande, empolgado, treinando o manuseio e disparo de fuzis. Sim, fuzis de verdade, como no filme.

Difícil me ver poeta e fuzileiro ao mesmo tempo?

04/08/2022

TORTO ARADO


Assim como uma faca

que sem bolso ou bainha

se transformasse em parte

de vossa anatomia

João Cabral


          O livro Torto Arado (2019) de Itamar Vieira Júnior me tomou como a um cavalo.

O livro de início me marcou pelo ritmo da trama, quando de um só fôlego já me descobri numa magia intensa de uma sôfrega leitura. Capítulos iniciais feitos de sangue e faca. A sensação é de perceber o gosto quente de cada cena. Na verdade, a intensidade do livro é da capa ao fim. Também é da capa ao fim o registro da luta de uma comunidade quilombola pelo direito à existência digna, a um teto firme sobre a cabeça e a um pedaço de terra sob os pés, ao fruto de seu trabalho.

         O livro situa o leitor num cenário onde a vida é vivida por uma família sem garantias. Uma comunidade riquíssima de encantos, suores e dores, sem o menor título de propriedade. Os poucos pertences que restam vão sendo usurpados pelo braço do patrão branco página por página, até o último bem de valor, material ou imaterial (até mesmo a crença e a possibilidade de sepultamento são vilipendiados).

03/08/2022

PÉ DE BICHO - JOGO DE PALAVRAS

Aquele pé de manga estava repleto de

MORCEGOS!

Fui obrigado a chamar os bombeiros. Eles trouxeram uma escada e subiram com capacetes. 

Lá chegando, espantaram os morcegos que voaram e voaram e voaram um voo medonho.

Quando os bombeiros foram embora, aquele pé de manga ficou repleto de

MORCEGOS!

Fui obrigado a chamar novamente os bombeiros. Eles trouxeram a mesma escada, subiram com capacetes e espantaram os mesmos morcegos que voaram e voaram e voaram um voo medonho.

Mostrei também para os bombeiros que agora aquele coqueiro estava repleto de

ABELHAS!

Os bombeiros arredaram a escada, subiram com proteção e também espantaram as abelhas que zumbiram e zumbiram e zumbiram um zumbido nervoso.

Quando os bombeiros foram embora, aquele pé de manga ficou repleto de

MORCEGOS!

Quando os bombeiros foram embora, aquele coqueiro ficou repleto de

ABELHAS!

Fui obrigado a chamar novamente os bombeiros...

02/08/2022

PONTO DE VISTA

 

O que é ponto de vista? Vou te explicar:

 

Fiz um laboratório, no canto da sala

Com copos, tralhas e ninharia

Misturei água e poções mágicas.

Da alquimia,

Os adultos só viram a casa ensopada.

01/08/2022

CONTA UMA HISTORINHA?

 

    Os meninos sempre pediam, antes de dormir, uma historinha de cabeça. Era o jeito deles dizerem que queriam uma história original, que não viesse de livro nenhum, que fosse feita ali mesmo, na frente deles, de improviso, quentinha, saindo na hora.

- Conta uma historinha? Mas tem que ser de cabeça!

E o pai contava e lá pelo meio da história, quase sempre, o sono batia, e as palavras se embaralhavam, e a história que falava sobre o peixinho que lutava, de repente, trazia frases desconexas, soltas, como “o combustível acabou”, aí o peixinho “o engarrafamento me fez atrasar”, “cinto de segurança”, “pega a caneta” etc. Os meninos riam da doidura momentânea do pai e o sacolejavam o lé-lé da cuca para tirá-lo daquela soneca.

- Conta uma historinha? Mas tem que ser de cabeça! Grandona, que essa foi pequenininha.