Donde remonta minha primeira memória?
Donde vem a história que me sustenta?
Vem de um tapa de quem me afagava?
Vem da chegada de quem sempre se ausentava?
Qual é a minha primeira memória?
Efetiva, não história
Lembrada, não contada
Ralada, não fotografia
A que eu tenho como ferida ou saliva
Ou a que saía como gastura
Donde vem minha primeira memória
crua?
Quem foi que permitiu que ela se apagasse?
Quanta injustiça cometi por não tê-la viva, nua.
Donde remonta meu primeiro gosto?
Vem do choque de quem eu frustrava?
De um abraço maldado?
De um paladar na casa da avó?
Foi moldado
maldosamente por carinho?
Ou carinhosamente por maldade?
Quem fui que permitiu que minha memória não fosse a minha história?
Lembro hoje da minha vida como um arremedo
do que percebi
e já não mais percebo.
Como se fosse um verbo cinza não aceso.
Esta seja talvez minha memória.