Donde remonta minha primeira memória?
Donde vem a história que me sustenta?
Vem de um tapa de quem me afaga?
Vem da chegada de quem sempre se ausenta?
Qual é a minha primeira memória?
Efetiva, não história
Lembrada, não contada
Ralada, não fotografia
A que eu tenho como ferida ou saliva
Ou som ou gastura ou fobia
Donde vem minha primeira memória crua?
Quem foi que permitiu que ela se apagasse?
Quanto injustiça cometi por não tê-la viva, nua.
É tarde agora.
Donde remonta meu primeiro gosto?
Vem a contragosto do que buscava?
De uma cor vermelha que era abraço?
Foi numa bicicleta, num ralado
Foi descendo a rampa ou foi moldada maldosamente por carinho?
Quem fui que permitiu que minha memória não fosse a minha história?
Que fosse eu cego e com medo
A minha memória e minha vida é só um arremedo do que percebi
e não lembro.