O que é ponto de vista? Vou te explicar:
Fiz um laboratório, no
canto da sala
Com copos, tralhas e ninharia
Misturei água e poções
mágicas.
Da alquimia,
Os adultos só viram a casa
ensopada.
O que é ponto de vista? Vou te explicar:
Fiz um laboratório, no
canto da sala
Com copos, tralhas e ninharia
Misturei água e poções
mágicas.
Da alquimia,
Os adultos só viram a casa
ensopada.
-
Conta uma historinha? Mas tem que ser de cabeça!
E
o pai contava e lá pelo meio da história, quase sempre, o sono batia, e as
palavras se embaralhavam, e a história que falava sobre o peixinho que lutava,
de repente, trazia frases desconexas, soltas, como “o combustível acabou”, aí o
peixinho “o engarrafamento me fez atrasar”, “cinto de segurança”, “pega a
caneta” etc. Os meninos riam da doidura momentânea do pai e o sacolejavam o
lé-lé da cuca para tirá-lo daquela soneca.
-
Conta uma historinha? Mas tem que ser de cabeça! Grandona, que essa foi
pequenininha.
Tinha um cabelo branco, penteado para trás com brilhantina em excesso.
Porque ele era de um tempo em que brilhantina era a moda e ele pegou o hábito
de assim usar.
Vestia roupa nos trinques, toda passadinha. Porque queria estar sempre
charmoso e estar bonito não era apenas uma mania.
Só comia na mesa da sala, com uma toalha de pano florida, embaixo do prato
branco, meio-dia em ponto.
Tinha um lenço no bolso, sempre azul, um pente e um bilhete de loteria da
semana. Apostava nos mesmos números e só ele sabia o porquê. Parece que queria
ser um super milionário.
Vivia num aquário, com
pedrinhas coloridas e uma rama de plástico no meio. Era vermelho, de um
vermelho escuro e provocante.
Gostava
de se exibir quando aproximávamos.
Parece que ouvi dizer que esta espécie gosta de briga. Tão pequeninho e indefeso... Será verdade?
O
certo é que dávamos cinco bolinhas de proteína toda manhã, trocávamos a água do
aquário toda semana, e ele observava com atenção os movimentos de toda a
família.
Só
não aceitava que se aproximassem do aquário.
Parecia
encarar a gente. Se você colocasse o dedo indicador perto do vidro, ele
dançava, abria as barbatanas, querendo defender o seu território.
Mas
quem gostaria de trocar com ele, morar no seu minúsculo aquário? Fico me
perguntando.
Era
comum surpreendê-lo, dormindo. Dormia de um jeito quase estátua, que parecia
fruto de meditação, que dava medo da frágil criatura ter-se ido. Parecia fingir
de morto. Conferíamos com o dedo, cutucando para ver se estava vivo, e ele já
acordava chamando para o ringue.
Foi
numa destas que o menino teve a ideia de buscar o boneco de brinquedo do Kung
Fu Panda e colocar bem em frente ao aquário.
Donde
veio esta maluquinha ideia, ninguém sabe. Mas como surgiu da imaginação do
menino...
O
Tog observou aquele adversário pançudo, eriçou as barbatanas, quase ficando na
ponta de um só pé, ops!, quer dizer, modo de falar...
O
certo é que Tog não respeitou o mestre das artes marciais, o famoso e lendário
Kung Fu Panda, e ficou fazendo cara feia, chamando o oponente para dentro ou ameaçando
vir para fora, para uma contenda.
Ficaram
um tempão olhando um para o outro.
O
Kung Fu Panda, numa posição eterna de um golpe fatal, nem mexia os olhos, nem
as pernas, nem os braços, nem nada, já que era mesmo de um plástico rijo.
O
Tog se movimentava todo, num estilo agressivo, e acho que mostrou conhecer
alguns golpes impossíveis para meros iniciantes. Ele era um mestre e nem
sabíamos quando o compramos. Pensei que fizemos um bom negócio, portanto.
Acontece
que chegou a hora da escola do menino e naquele dia havia dever de casa para
entregar, era dia do brinquedo e o pai estava com pressa, e talvez por isto esquecemos
o Kung Fu Panda em frente ao aquário do Tog.
Para
quê, meu Deus?
Foi
uma tarde inteira de intensa luta... pelo menos dentro daquela caixinha de
vidro.
Se
peixe suasse, o Tog estaria encharcado de tanto soco que dera na água.
Mas,
valeu a pena. Pois, no fim da tarde, quando o menino voltou da escola, qual não
foi a surpresa em encontrar o Kung Fu Panda deitado, com uma gota d´água na
testa, bem próximo ao aquário.
-
O Tog venceu! Gritou o menino, quando viu a cena.
TOG
versus KUNG FU PANDA!
-
O Tog venceu! Repetiu o menino, orgulhoso.
O
pai, depois de fechar a janela, não soube explicar o que tinha acontecido,
ficando com a explicação e entusiasmo do menino.
Na manhã seguinte à luta, por precaução, diminuiu de cinco para três bolinhas de proteína a alimentação do Kung Fu Betta.
O Cosmos era o único time de futebol de rua treinado por uma técnica. Isso mesmo, era uma moça que nos treinava e, embora já houvesse algum comentário sobre este pormenor, os meninos, querendo saber mais de futebol do que de preconceitos, não estavam nem aí.
Estávamos treinando duro havia dias
para o confronto de domingo. No campeonato do bairro São Marcos, enfrentar o Ferradura
era lutar contra a elite. Os caras tinham camisas com patrocínio, treinador bigodudo
com currículo e pareciam todos loiros e de banho tomado.
O nosso Cosmos tinha um conjunto de camisas dado por um candidato a deputado federal e tinha o craque Nem. As camisas faziam tanto a propaganda do deputado que era impossível não imaginar que nosso time fosse o Vasconcelos Futebol Clube, o que, claro, era motivo de chacota.
Foi minha vó que bateu na porta do comitê
de campanha e conseguiu o conjunto de camisas com o nome do candidato. As
camisas, um pouco grandes para nossa magreza, eram mais uma faixa publicitária
do que um uniforme. Para completar a alegoria, o Nem lidava com o ápice de uma
micose espalhada por todo o corpo que ruía sua autoestima. A micose rendara-lhe
o apelido de Torresmo e, sem tratamento, estava longe de acabar.
Nem, nosso camisa 10, portanto, sofria
com a consequência do mergulho na Lagoa da Pampulha, deixando o time com poucas
chances.
Mas seguíamos na esperança de vencer
o Ferradura até a véspera do jogo, encorajados pela voz feminina de nossa
comandante.
Acontece que a realidade quando se
apresenta tem jogadores demais e parece bater duro como martelo nos dedos.
E por isso começamos o jogo nervosos
e desentrosados e já perdíamos por um a zero, sem nem perceber como tomei
aquele gol.
Seguramos vinte minutos o placar, até
que houve uma falta perto da área. Imaginei que podia agarrar e afastei a
barreira. O craque do Ferradura tomou distância e lançou outro chute no ângulo.
Saltei como se esquecesse a
importância dos olhos da vizinhança. Saltei como se escrevesse por um caminho
seguro, como se saltasse numa piscina azul e morna. Saltei como um gato
vira-lata e agarrei direitinho aquela bola coquinho, impedindo o segundo gol
dos metidos.
O placar de 1 x 0 era, até então, um
alívio.
Fomos para o segundo tempo.
O Tande entrou bem no jogo e o Nem,
ou Torresmo, se mostrou grande torcedor na reserva. Tande conseguiu a proeza de
empatar o jogo com um gol de barriga.
O Dengo, mesmo amarradinho, conseguiu
marcar o dele. Ganhávamos por dois a um e não acreditávamos. Nossa técnica,
sempre tão severa, deixava alguns sorrisos em forma de palmas chegar a nossos
ouvidos. Éramos pura empolgação àquela hora.
No último minuto do segundo tempo, o Ferradura
Futebol Clube conseguiu um contra-ataque veloz. Em dois passos, o filho do dono
do time estava a poucos metros da área, e deixara o Binha, nosso gordinho zagueiro,
deitado na rua. Veio em minha direção e, antes de atirar, disse maliciosamente:
- Pega goleirinho!
E soltou um bicudo daqueles.
O chute veio forte como o do meu pai.
Aquela defesa, se conseguisse, talvez fosse minha convocação para o Ferradura,
pensei por um segundo.
Saltei e vi que meus reflexos eram de
outro mundo.
Fiz o que nem dei notícia.
A defesa conseguiu segurar a vitória
do domingo e a felicidade eterna da galera.
Quem viu a defesa, até hoje me
respeita.
Nunca fui convocado para o Ferradura,
que era um time de meninos penteados e de unhas cortadas.
O Cosmos, que foi imortal naquela tarde, teve vida curta na federação dos times de rua do bairro São Marcos. Durou pouco, menos do que a micose do Nem.
Era o início da pandemia. Se bem que, de tanto que a quarentena se estendeu, a gente
acabou perdendo a noção de início, meio e fim. Mas o certo é que as rotinas
começavam a mudar, o menino estava longe da escola e dos amigos e
começava a dar nas pernas e nos braços uma sensação de que era preciso fazer
alguma coisa.
O menino nunca
ouvira falar que fungos, musgos e folhas pudessem aparecer nas pessoas e
transformar a cidade numa enorme e multicolorida floresta tropical, mas a
hipótese a este ponto nem era descabida, tamanha era a proporção da inércia de
todos, parados ali como troncos indecisos.
A frase que mais se ouvia e que a
família do menino seguia à risca era #fiqueemcasa, assim, com hastag,
para parecer uma tatuagem.
Pois bem, o menino, obediente
que só ele, soube ler o mandamento e não viu em nenhum lugar da frase o
impedimento de levar baldes de água para o quarto.
#fiqueemcasa não contraditava com
#baldesnoquarto e, de certa forma, até mesmo auxiliava aquela tarefa difícil de
se estagnar num apartamento de capital.
#fiqueemcasa não trazia uma
proibição de se imaginar, com auxílio necessário de muita água, num arquipélago
privilegiado da costa brasileira.
Decidido, foi assim que o menino encheu o primeiro balde e passou pela sala a caminho do quarto. Aproveitou-se do descuido momentâneo do pai, que, agora em home office, parecia mergulhado no computador, e foi começar a aventura.
Eram muitos bichos marinhos naquele quarto: baleia, tubarão martelo, golfinhos, peixinhos pequenos, peixões, tartarugas marinhas e alguns dragões (ops!) que no parecer do menino pareciam gostar de água.
Não seria justo lançar o #fiqueemcasa
para aquela parcela considerável da fauna marinha sem o essencial, a óbvia
quantidade equivalente de água.
E o menino pegou o segundo balde.
E o menino passou de levinho
perto do pedacinho do novo escritório improvisado do pai com o terceiro, quarto
e quinto baldes.
Um observador se perguntaria se os
tantos litros de água coletados já não seriam suficientes para formar aquele
trecho menor do oceano atlântico, enchendo todo o quarto.
Outro observador talvez tivesse visto
de esgueira o que o pai desatento só viu quando era tarde demais.
E quando o distraído pai viu e ouviu a
presença da água no apartamento à fora, em corredeiras, veio o grito, na forma
de uma bronca severa, quase um urro:
- Que chão molhado é este? Meu
Deus do céu!!!!
Diante do susto, o pai não teve outra
opção senão deixar o computador na mesa (agora, vítima fácil da
irmãzinha mais nova do menino) e correr pelo corredor, abrindo de supetão a
porta do quartinho.
- Meu Deus! - foram por minutos as
últimas palavras do pai, que se viu engolido por uma onda gigante.
Os brinquedos convencionais,
carrinhos, instrumentos musicais, bonecas e peças de montar boiavam sobre o
mar, numa profusão de cores bonita de se ver.
Os brinquedos marinhos, estes, com um
sorriso escondido sob a camada fina de plástico, eram cúmplices do menino.
Algumas almofadas, parece que pelo
efeito do isopor ou da bagunça, afundavam e voltavam a flutuar.
Havia pequenas ondas que impediam a
visão perfeita daquele húmido carnaval.
O pai, recuperado o fôlego do choque,
gritou pelo menino e deu algumas braçadas nadando até a cama, onde se
encontraram. Pularam os dois, o pai e o menino, no cesto de brinquedo que
flutuava e esperaram atônitos a água escorrer pela porta aberta e a maré baixar
naquele quarto.
Maré baixa, os brinquedos e objetos
sedimentados sobre o chão, todos com uma película inesquecível de água, foi
hora da bronca:
- Onde já se viu trazer água, tanta
água para o quarto, menino?
O menino, educado, daqueles que secam
entre os dedinhos do pé depois do banho, pedem para escovar os dentes e lavam
as mãos sempre que suspeitam, argumentou:
- Mas, papai, criança brinca. Amanhã
posso brincar de novo?
O pai olhou para o filhote ainda
encharcado e, com a necessidade de educar, declarou:
- Com água, não, Pedro! Amanhã é a vez
dos bichinhos que voam.
Estava
repleto de frutas e o verde das folhas fazia um colorido bonito com o negro das
bolinhas, que quase estouravam. As jabuticabas tinham um brilho de verniz e
pareciam no limite do inchaço.
Papai
subiu no pé de jabuticaba, por uma entrada que ele conseguiu e sumiu. Não dava
para achá-lo e foi quando o menino começou a chamar:
-
Papai, desce, desce, já pegou muita jabuticaba.
Nada
do papai responder, nem descer, nem resmungar de boca cheia.
Foi
preciso pedir para o tio subir atrás, achar o pai e tentar cutucá-lo, para voltar,
enfim.
Lá
foi o tio e nada do tio.
Já
eram dois no pé de jabuticaba. Não dava para ver sequer os pés dos adultos. Não
dava para ouvir a voz de ninguém. Como a árvore soltava, a todo instante, uns
ciscos afiados, nem dava para arregalar os olhos de jabuticaba.
-
Papai, titio, desce, já deu. O menino choroso implorava. Havia uma preocupação
e um medo. E se...
O menino pediu socorro à mamãe, que assistia a tudo lá de baixo.
E
lá foi a mamãe atrás dos dois, atendendo ao pedido do filhinho inseguro.
-
Trago seu pai, trago seu tio, pode deixar!
Os
galhos estavam tão lotados e gordinhos, que era impossível subir sem ouvir os
“troft”, “troft” das bolinhas estourando nas roupas.
Lá
foi a mamãe, de calça jeans e coragem. Foi e também se esqueceu da vida, ou
entrou num túnel do tempo, ou caiu num portal para outra dimensão, ou entrou
numa nuvem de sonhos, porque nada da mamãe voltar.
-
Papai, mamãe, titio, cadê todo mundo? Falava o guri que tinha medo de subir em
árvores e de perder os pais e de perder o tio e de sonhar estas coisas.
Já
estava pronto o choro, quase explodindo, quando os três pularam daquela altura.
Pularam,
voltaram, desceram ou caíram de maduros... mas eram outros. Certeza que não
eram os mesmos. O menino, astuto para a idade, percebeu. Olhou com espanto,
sorriu com seus olhos de jabuticaba, entendendo tudo.
Subiram
adultos carrancudos, com dobras e ranzinzas.
Desceram três moleques sujos e empanturrados de tanta jabuticaba.
Naquele
dia, o menino contou ao papai que estava com medo de trovão, rojão e balão,
tudo que acabava com “ão” e fazia muito barulho.
O medo era
aqui dentro da gente, mas parecia deixar tudo cá fora escuro como breu, como
uma noite sem lua. Era de verdade e não era brincadeira, aquele medo.
Machucava, mesmo, como espinho no pé, batida no joelho.
Era um medo de
esquecer fantasias, de deixar as pistas de carrinhos de lado, de perder o
sorriso por um minuto, de querer ir para casa correndo e deixar a festa. Mesmo
com escorregador e guloseimas, a festa perdia a graça.
O que fazer
quando o medo é assim grandão, papai? Perguntou o menino, com cara de choro.
- Ora, ora...
tenho uma ideia - falou o papai, como se já tivesse sentido o mesmo medo.
– E se a gente
desenhar os trovões, rojões e balões num papel? Desenhar com todas as cores de
seus lápis, rabiscando forte cada estampido?
O menino, que
confiava no papai, topou aquele plano.
E enquanto
desenhava, usando preto para o trovão, amarelo para o rojão e vermelho para o
balão, o menino dizia:
- Papai, de
balão pequenininho, o medo nem é tão grande. Se o balão é grandão, aí não, o
medo é gigante.
- De trovão
baixinho, o medo é uma formiguinha. Se o trovão é alto, o medo vira leão.
- De rojão, lá
longe, o medo é um traque. De rojão de time campeão, bem pertinho, o medo é uma
explosão.
O menino
conversava, imaginava e desenhava aqueles medos no papel. Dava até para ouvir o
barulho dos desenhos.
Cabrum, pow e
pá.
No fim da
tarefa, o papai perguntou:
- Agora, e se
a gente amassar a folha todinha, que está repleta de seus medos, surda de seus
sustos, e jogar na lata do lixo? Topa?
O menino
gostou da ideia, amassou na hora a folha com os desenhos dos medos e deu para
ouvir um tanto de barulho medonho dentro da bola de papel. Era um cabrum, pow e
pá baixinho, abafado pelas dobras.
Na sequência,
aqueles medos barulhentos foram parar bem na lata do lixo, junto com restos
imprestáveis de outras coisas. Não jogaram na lata dos recicláveis, para nem
ter perigo de volta.
- Agora, e se
a gente descer com o lixo e ver daqui da janela os seus medos irem embora?
Era dia da
coleta e, à noite, quando chegou a hora, ficaram os dois debruçados na janela,
assistindo o caminhão da prefeitura, com os moços da limpeza, recolhendo tudo,
inclusive aquela folha enrolada cheia de medo, cabrum, pow e pá.
Os moços da
limpeza nem suspeitavam do perigo que corriam.
Será que no
lixo de cada casa havia uma folha com medos desenhados?
O caminhão de
lixo foi embora, lento e pesado, rua acima, levando na caçamba todo o medo do
menino.
Que saudade do Valdo.
Era um menino engraçado, ainda se acostumando com o imenso
corpo, que dera para crescer a uns anos e parecia não querer parar naquele
tamanhão. Parecia ser maior que ele mesmo, mas fazia com gosto parte do nosso
pequeno time.
Éramos o Binha, Dengo, Tande, Berê (o craque), Nêm, Célio e
Valdo.
E todos estávamos esperando aquele dia.
Seria a final do jogo da rua e disputaríamos o título com o
pessoal da rua de baixo.
Pois bem, começamos o jogo perdendo e eu já tinha tomado
dois gols.
O Nêm, que corria muito e tinha apelido de Torresmo,
empatou, com dois sorrisos que só ele.
Lá pelo meio do segundo tempo, vi Valdo sozinho e arremessei
a bola na direção daquela montanha-menino. Ele dominou, driblou o zagueiro que
quis impedir e chutou forte.
Forte, tão forte que o golaço pareceu covardia com a
meninada.
Vibramos tanto que descobrimos naquele instante sermos uma
família.
Mas o chute tinha sido muito forte e o pessoal de lá não
gostou. Não gostou tanto que se negou a buscar a bola que tinha ido parar num
pomar que havia lá embaixo.
Era conhecida a regra: quem tomasse o gol, buscava a bola. O
outro time apelou e quebrou o velho costume.
Num momento de felicidade e humildade, o nosso herói
sentenciou:
- Deixa que eu busco!
E lá foi o Valdo buscar a bola do jogo, no meio das frutas e
da passarinhada, sem querer parar de ser feliz.
Lá foi o Valdo com um sorriso aberto e gigante.
Lá foi o Valdo para o lugar que a gente pensava que sabia.
Ele foi buscar a bola e não voltava mais.
O tempo passou, veio a noite, a hora do banho e o Valdo não
voltava.
Nunca mais voltou.
Ganhamos o jogo que não terminou.
Perdemos o Valdo de vista.
Nosso time para sempre jogou desfalcado.
Que saudade do Valdo.