Eram três grandes mangueiras na casa de vô Hugo.
Segundo o que todos diziam, as maiores mangueiras do mundo.
E vô Hugo se orgulhava de poder lustrar de quando em vez as plaquetas com as inscrições dos méritos dos pés de manga.
Imagina, todo o pódio ali no seu quintal.
Era uma fortuna os pés de manga espada, figo e sapatinho.
E por isso o dezembro chuvoso era uma festa.
A maior mangueira, que ficava em frente à casa, ao menor vento, nos assustava com fogos de artifícios que eram os pedaços de telhas esvoaçando para todo lado.
Vó violeta morria de medo.
Nós, netos, quando a telha aguentava, ficávamos em posição de partida, ouvindo o rolar das mangas pelas canaletas, e, pronto, quem pegasse a manga madura era o campeão.
Passava a chuva, que lavava a rua, mas não lavava nossas bocas e memórias de amarelo de manga. Íamos para o quintal, brincar de tudo.
E vô Hugo dizia: “Não assustem as rolinhas”.
Rolinhas que eu nunca vi.
Procurava por todo quintal, entre as três árvores gigantes, perto do muro do mundo, em cima daquele telhado e nada.
As rolinhas do quintal de minha infância eram um mistério ou uma ausência, apenas confirmadas pelo receio de meu avô.
Até hoje não sei se existiam.
Às vezes, imagino-as voando, sem cor, só aquela fronteira em forma de pássaro, batendo suas asas transparentes.
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