COMPROMISSO
COM A POESIA
QUE RASGO
Com o poema tudo posso! (em voz alta)
Com ele
pulo
Driblo, corro e tropeço
Nos seus olhos
Com ele
quebro
Desestruturo e
Por fim
me embolo
Nos seus olhos
Fujo com palavras
Finjo que vôo,
Mergulho e empino
Caindo aqui
Nos seus olhos
Rodopio meu poema
Em torno deles
Me torro e queimo
Em sua órbita
Seus olhos são a chama do meu poema atrapalhado?
“- Com o poema você nada pode.” (em voz serena)
O celular roubou meu nome, minha identidade, meu retrato.
O celular roubou minhas noites
Roubou o susto da lua, o medo das luzes fracas da cidade
Roubou meu encantamento pela dura arquitetura e por sua
inexistência
O celular veio e roubou as brincadeiras, o toque
Roubou o erro e até os atritos que acabavam em discussões
Roubou a sensação de ter um abraço, os olhares nos fundos
dos olhos
Roubou a mesa, os jogos, a leitura e o tricô
Roubou minha letra e a necessidade de me fazer entendido
O celular roubou o filme em família, as poções de pipoca
Roubou a brincadeira contínua
A conversa contínua
O ócio contínuo e em família
O celular veio e roubou a poesia
Transformou tudo em shorts e insignificâncias vazias
Dividiu meu dia em pequenos pedaços desconexos
O celular roubou o poema de João Cabral de Melo Neto
Triturou tudo de amor que havia ali
Um parente distante morreu e restaram algumas caixas de livros na casa da minha avó. Dentre eles estava um exemplar de Duas Águas, primeira edição da José Olympio. Foi neste livro que mergulhei por alguns dias e foi talvez meu primeiro contato real com a poesia. Claro, já havia lido poetas da escola e da família, mas nunca um poeta de toga, da capa ao fine.
Tão absorvido fiquei pelos textos que veio uma fixação pelo autor.
Meu pai era delegado de polícia federal no Rio de Janeiro e não foi difícil realizar um desejo meu: o telefone e endereço do poeta. Era na praia do Flamengo que ele morava e foi para lá que liguei certa noite, clandestinamente.
O telefone tocava e ninguém atendia.
Sei que não entro em lugares
Mas quem entra aqui no meu latim?
Sem permissão e sem chave
Terá que percorrer todo enclave
Ou sair com desdém de mansim
Não tem nada que valha aqui
Apenas o pouco gesto
Apenas a penúria do resto
Que traguei e ainda trago pr'este cantim
Cestim de poucas palavras
É uma cela
Se fossem muitas,
seria uma cela ainda assim
Não não não sei porque escrevo e boto a mão no fogo
Talvez porque seja algum filho mais novo
Do bicho vaidoso que mora em mim
Se tem alguma glória neste botim
Se tem razão neste novelo
Talvez seja montar seu tempo a pêlo,
trazendo você comigo, até este verso do fim.
(Perda + dor) - tempo
Esta palavra não vem
Teria que ser algo como uma fotografia
não a nostalgia, que não basta
não a melancolia, que não veste
Esta palavra não há
Talvez uma palavra inventada
tempessência
Que seria uma palavra somente minha
Ou nada disso
Conseguiria não escrever esta falta?
Como uma não-palavra
que expressasse minha dor pelo inverso do argumento
pelo vácuo de um momento
pela lacuna deixada pelo que foi
Instâncua
Mas tudo ainda seria apenas o eco de um grito.
A casa do pai
lugar ou tempo?
Já disse que vejo suas mãos nas minhas
Espelho ou susto?
Ouvi dizer que “pai é palha”
Como? Se este peso pelo ato pelo desatino pelo grave pelas
estantes de vidro acumuladas em cada dobra dos dedos?
A casa do pai tem um conjunto de algo simples e caro que
abraça minha vida
Tem também uma entrega formal que coleciona lágrimas
A casa do pai tem muitos quartos
Alguns deles com alvenaria e janela
O meu é só uma ausência
Há um quarto com enfeites e bijuterias
com certificados de datas infinitas
Há um quarto tímido que insinua uma construção maior
Há uma voz num dos quartos que inicia um discurso
A casa do pai é firme como a minha.
Acho que desde então.
Quando muro
Quando só sem arrimo
Quando medo
Quando pulso
Quando corto e o sangue não pára
Quando sem ar
Quando voz
Quando grito
Quando espinho
Quando calma
Quando escuro
Quando perco
Quando esmurro
Quando dói
Quando sonho
Quando berro
- Desde quando?
O passarinho é um problema
eterno
com suas asas variáveis
ele atravessa um campo infinito e sem solução
Pousa
num galho incerto
pesa levemente sobre o capim
observando tudo, arisco
E come um redemoinho ou semente
e como uma consoante qualquer
ele fenecerá indubitavelmente
sozinho
Sem nenhum problema