29/01/2025

26/01/2025

SEUS OLHOS E MEU POEMA

Com o poema tudo posso! (em voz alta)


Com ele

pulo
Driblo, corro e tropeço

Nos seus olhos

Com ele

quebro

Desestruturo e
Por fim

me embolo

Nos seus olhos

Fujo com palavras 
Finjo que vôo, 
Mergulho e empino
Caindo aqui

Nos seus olhos

Rodopio meu poema
Em torno deles

Me torro e queimo
Em sua órbita

Seus olhos são a chama do meu poema atrapalhado?

“- Com o poema você nada pode.” (em voz serena)

24/01/2025

APROPRIAÇÃO

O celular roubou meu nome, minha identidade, meu retrato.

 

O celular roubou minhas noites

Roubou o susto da lua, o medo das luzes fracas da cidade

Roubou meu encantamento pela dura arquitetura e por sua inexistência

 

O celular veio e roubou as brincadeiras, o toque

Roubou o erro e até os atritos que acabavam em discussões

Roubou a sensação de ter um abraço, os olhares nos fundos dos olhos

 

Roubou a mesa, os jogos, a leitura e o tricô

Roubou minha letra e a necessidade de me fazer entendido

 

O celular roubou o filme em família, as poções de pipoca

Roubou a brincadeira contínua

A conversa contínua

O ócio contínuo e em família

 

O celular veio e roubou a poesia

Transformou tudo em shorts e insignificâncias vazias

Dividiu meu dia em pequenos pedaços desconexos

 

O celular roubou o poema de João Cabral de Melo Neto

Triturou tudo de amor que havia ali

E cuspiu este reels


22/01/2025

O DIA EM QUE FALEI COM JOÃO CABRAL DE MELO NETO, OU QUASE

    

Um parente distante morreu e restaram algumas caixas de livros na casa da minha avó. Dentre eles estava um exemplar de Duas Águas, primeira edição da José Olympio. Foi neste livro que mergulhei por alguns dias e foi talvez meu primeiro contato real com a poesia. Claro, já havia lido poetas da escola e da família, mas nunca um poeta de toga, da capa ao fine.

    Tão absorvido fiquei pelos textos que veio uma fixação pelo autor.

    Meu pai era delegado de polícia federal no Rio de Janeiro e não foi difícil realizar um desejo meu: o telefone e endereço do poeta. Era na praia do Flamengo que ele morava e foi para lá que liguei certa noite, clandestinamente.

    O telefone tocava e ninguém atendia.

21/01/2025

FIM DE MIM

Sei que não entro em lugares

Mas quem entra aqui no meu latim?


Sem permissão e sem chave

Terá que percorrer todo enclave

Ou sair com desdém de mansim 


Não tem nada que valha aqui

Apenas o pouco gesto

Apenas a penúria do resto

Que traguei e ainda trago pr'este cantim


Cestim de poucas palavras

É uma cela

Se fossem muitas, 

seria uma cela ainda assim


Não não não sei porque escrevo e boto a mão no fogo

Talvez porque seja algum filho mais novo

Do bicho vaidoso que mora em mim


Se tem alguma glória neste botim

Se tem razão neste novelo

Talvez seja montar seu tempo a pêlo, 

trazendo você comigo, até este verso do fim.


ECO


Não consigo nomear uma certa dor que percebo 
ao perder para sempre este instante.


(Perda + dor) - tempo


Esta palavra não vem


Teria que ser algo como uma fotografia

não a nostalgia, que não basta

não a melancolia, que não veste


Esta palavra não há


Talvez uma palavra inventada

tempessência


Que seria uma palavra somente minha

Ou nada disso 


Conseguiria não escrever esta falta?


Como uma não-palavra

que expressasse minha dor pelo inverso do argumento

pelo vácuo de um momento

pela lacuna deixada pelo que foi


Instâncua 


Mas tudo ainda seria apenas o eco de um grito.

09/01/2025

A CASA DO PAI

A casa do pai

lugar ou tempo?

Já disse que vejo suas mãos nas minhas

Espelho ou susto?

Ouvi dizer que “pai é palha”

Como? Se este peso pelo ato pelo desatino pelo grave pelas estantes de vidro acumuladas em cada dobra dos dedos?

A casa do pai tem um conjunto de algo simples e caro que abraça minha vida

Tem também uma entrega formal que coleciona lágrimas

A casa do pai tem muitos quartos

Alguns deles com alvenaria e janela

O meu é só uma ausência

Há um quarto com enfeites e bijuterias

com certificados de datas infinitas

Há um quarto tímido que insinua uma construção maior

Há uma voz num dos quartos que inicia um discurso

A casa do pai é firme como a minha. 

08/01/2025

QUANDO

 Acho que desde então.

Quando muro

Quando só sem arrimo

Quando medo

Quando pulso

Quando corto e o sangue não pára

Quando sem ar

Quando voz

Quando grito

Quando espinho

Quando calma

Quando escuro

Quando perco

Quando esmurro

Quando dói

Quando sonho

Quando berro


- Desde quando?


MINHA VERSÃO DO PASSARIM

O passarinho é um problema


eterno

com suas asas variáveis

ele atravessa um campo infinito e sem solução


Pousa 

num galho incerto

pesa levemente sobre o capim

observando tudo, arisco


E come um redemoinho ou semente


e como uma consoante qualquer

ele fenecerá indubitavelmente

sozinho


Sem nenhum problema