18/11/2025

O dedo da joaninha

    
Uma foto da joaninha no dedinho da Luísa... Era uma vez esta história que começou do fim. Mas, até começando pelo fim, o fim desta história acabaria por ser o começo... 
    Então posso dizer que era uma vez o início da história da joaninha. De uma joaninha que perambulava pelo jardim sem vontade nenhuma, sem rumo. Mas por ali estava uma menina e seu dedo compridinho e um sorriso aberto. O dedo parecia apontar uma primeira estrela, dizer "presente!" ou indicar um caminho. Mas aquele dedo da menina estendido ali no jardim da joaninha tinha um diferente propósito. O dedo tinha um desejo imenso de encontrar ... a joaninha. 
     Inevitavelmente, a joaninha distraída encontrou o dedo e a história da menina. Ajeitou as antenas, assustada, deu uma piscadela e, dali em diante, passou a ser o desejo da joaninha subir no dedo dela.
        Com felicidade e um pouco de gastura de cada lado, o dedo da menininha e as patinhas da joaninha estavam juntinhas, plantadas numa só fotografia, fazendo cócegas e batendo asas. 

14/11/2025

AFAGO


Trago a palavra afago

     como um móbile

        meus dedos talvez a quebrem

           meus beijos talvez a furem


meus lábios talvez a fumem

trago a palavra afago.


  trago a palavra afago

    com os olhos fechados 

      com desenhos de sombras de luz

talvez apenas abra os olhos


  a palavra afago é uma amiga

    uma pedra, uma entrega

      em que me desprendo 


despenco


a palavra afago é um interruptor de mim

afago apago 

  afago apago 

    afago


é intuitivo me afogar neste momento


é um desejo morrer de afago

a fogo

afogo.

25/02/2025

DOIS FAMOSOS ANJOS

 

Por dois tempos

Vi os anjos
Em meus ouvidos.

Estava andando aqui
E um deles repetiu
“Albert Camus!”

Fiquei tranquilo
E sem saber o que era aquilo
Escutei o segundo zumbido:

“Não serás nunca um canhoto no mundo.”

21/02/2025

PEPITA

Na serra pelada

de meu peito

garimpo e quebro pedra

atrás de rara palavra

13/02/2025

AQUI

 


D
ecidi que quando crescer

Não quero ser gente grande

Vou ficar para sempre aqui

Nesta infância

 

Coronel bigode

Com o dedo em riste

Reclama e reclama

 

Quem fica triste

Se ele cai

De bunda na lama?

 

Ouro

Quintal com cheiro de chuva
Boca com gosto de manga

Ninguém tira ou arranca

O CALANGO E A DAMA-DA-NOITE

No centro do quintal da Vó Zelda havia uma árvore espetacular. Ali no mundo tudo girava em torno daquela frondosa Dama-da-noite. Suas folhas eram veludo, seu tronco curto e forte como a certeza e a copa formava um giro sublime. E era embaixo dessa realeza de planta que morava, junto a um montinho de pedras, um calango. Um calango da cor de uma mata. Um calango que, por capricho da natureza ou artimanhas do coração, nunca dormia à noite.

12/02/2025

Tenho medo.

Papai, não quero sonhar.

Pega meu sonho para você?

Quando eu acordar você me devolve?

LIVROS

Desordem

É só vir para casa
Que os poetas todos saem da estante

A fileira alfabética deixa lugar para um rastro de satisfação impossível de curiosidades

?

A poesia me permite visitar um espaço não pensado por Deus

PEDACINHO


A formiga é um brinquedo

Que corre

Ou tijolo que soma
Ou barquinho que some
Ou mínimo sorriso

É companheira disso
Desse cortiço de cores
Dessa cachoeira insubmissa

11/02/2025

Do mundo

Ganhei a palavra água
Pronta e arredondada

Ganhei outras sacolas
E coisas fáceis de carregar pela boca

O que tento fazer com meus acentos
É fugir des conforto

ORAÇÃO A SÃO JORGE

 

"(...) Eu andarei vestido e armado com as armas de Jorge, para que meus inimigos (...)"

Que meus inimigos, tendo olhos, não me enxerguem,
Que seus olhos se ofusquem e
Percebam que há mais no mundo do que minha queda.

E percebam que minha queda
É um instante de experiência,
E que, junto a eles, eu tudo engulo.

10/02/2025

Perdi hora na tentativa de um poema sobre a Av. Afonso Pena. Meu olhar foi seco demais e dos versos nem as cores valeram a pena. A tentativa de um poema, junto com outras milhões de, poderiam formar um universo paralelo dos rascunhos e croquis malsucedidos.

NÓ NO ACASO

Tarefa de hoje: definir o “nó no acaso”.

Descobri este atalho num dia em que o celular falhava, a caixa de email não abria, as pessoas não estavam, quem me queria mostrou alheamento, o pneu do carro furou e tudo apresentava uma dificuldade de conexão do século passado. Se persistisse na labuta de servente de pedreiro, quebrando aquele muro que o acaso me apresentava, não iria longe.