Ando sempre com a bolinha na mão
Qualquer tropicão
Largo o mundo
E abraço a bola
não é universal o medo
da chuva que sentia
quando cântaros era uma palavra
distante
e meu vocabulário só percebia
sabores, goteiras e cheiros
de terra e mangas
que caiam de uma tempestade de cor
que só havia naquele meu tempo do interior
cor profunda e com textura
nada universal
não é comum a todos ver meu avô Hugo
eterno
ajoelhado perto do fogo
tendo uma família enorme ao derredor
fazendo brinquedos de lata e sorrisos de galho
enquanto nele alguma dor já plantava
a raiz profunda da despedida
e consumia seus dias o envolvimento
com os quilos de arroz
com os quilos de quartos
com os quilos de camas
com os quilos de netos
nada universal era meu avô Hugo
tão preciso e magro
essencial.
Era uma casa muito engraçada, cheia de brinquedos e coisas de adulto.
Havia duas crianças na casa dos
adultos que transformavam as coisas dos adultos em coisas de criança.
Então a casa era uma casa
completamente das crianças.
Havia a sala de estar, que virava um
campo de futebol.
Havia a área de serviço, que virava
um laboratório.
Havia muitas portas, que viravam cavaletes e pilares para a menina ginasta.
A menina jogava as almofadas no chão e brincava de amarelinha.
O menino
transformava os papéis importantes em miniaturas de aviões.
Era uma casa
muito engraçada, cheia de adultos felizes.
De sua casa de embalagens que incomoda a noite
Se a flor for sorriso, alguém toma
Quando a hora for precisa, alguém enxota
Não pode sair sem aviso, que perde o catre
Não pode levar o troço, que perde o passo
Carrega consigo tudo que acumula
Da vida que expulsa e ninguém embala
Meu poema sem seus olhos é um saca-rolhas na gaveta.
Entendeu a treta?
Multicores
5º Caso. Pichações
tac tac tac tac tac tac tac:
"todas as peças de vidro estão em mim"
tac tac tac tac tac tac tac:
"tenho nos pés o último par de sapatos"
tac tac tac tac tac tac tac:
"emotion tem botões?"
tac tac tac tac tac tac tac:
"tirei uma fotografia do móbile"
tac tac tac tac tac tac tac:
"JOHNNYSIO!"
(som de passos correndo...)
Fogo e dor ditam
o tamanho do meu vocabulário.
Se me chama ou me larga,
invento um dicionário.
Lembrei-me de uns olhosLembrei-me de um tapa
Chumbo
10º Caso: suicidade
MANIFESTO
Nada nunca foi como eu sempre quis
Tudo sempre foi como eu nunca quis
Sempre tudo foi como eu nada quis
Nunca nada foi como eu tudo quis
Fim manifesto.
Olhe
É impossível olhar para trás
As gotas vieram de uma chuva que conto
Que é linguagem, imagem ou lembrança
Se não viu a chuva de ontem
não adianta fechar os olhos
Apenas se molhe
Nas gotas deixadas
antes que virem pássaros
Deite na lambança da chuva que não viu
É impossível olhar para trás
Ontem à tarde quase ouvi um passarinho
Destes já submissos à cidade.
Por trás de seu canto,
havia barulhos de carros, avião, ar condicionados
e máquinas de fazer qualquer coisa.
O passarinho se esforçava para aniquilar a cantoria
de uma rouquidão mal-humorada.
Seu canto se contorcia,
buscando um entrosamento
com o fantasma do asfalto quente
e o lixo jogado nas calçadas.
Não considerou meu colorido.
Fiz no desenho da questão a intervenção mais linda que pude,
com cores que mostram um mundo com graça.
Meu vermelho extrapolou.
Preferi não usar o preto para evitar a redundância.
Acabei com a ponta do lápis amarelo, que este mundo precisa de sol.
Colori cada figura que vi na página.
O zero na questão foi de caneta azul, impiedoso. Duro.
Eu não daria zero para o zero da professora.
Minha idade traz inocências que não permitem.
Tão bonito o azul do zero dela e o redondinho tão perfeito.