28/08/2022

No início, a porta

Foi o fim do verbo


 Quem me dera chegar atrasado

em meus 15 minutos de fama.

 Sou a ação que me contradiz

(Soa contradição).


 As coisas não deixam espaço para os olhos


FUGIU

 Este poema não coube nos livros


VOCÊ

Eu vou te cortar da minha rotina
Te colar na minha retina
Te trazer para mais perto
Beber verso a verso
Te jogar na minha sina


POEMA EM CHAMA

Este poema

Quando lido

Se inflama


27/08/2022

CIDADE JARDIM?


S
ou de Belo Horizonte

E deslizo sobre estas ruas a maior parte de meus dias. 

É sobre elas que disfarço algumas frustrações

Fingindo-me apenas um carro em movimento

 

Como aquele que passa, com mesma gana e cor e modelo diverso

Como aquele que só pensa em artes cênicas e não vê a entrada do túnel

Como aquele que repousa a mente numa melodia horrível

Como aquela moto que entrega e se entrega num risco caríssimo 

Com uma ideologia que o consome, como uma cegueira

Como aquele carro amarelo que não está à venda

 

Estamos aqui por baixo e dentro da mesma intenção de ligação

A cidade busca com dureza fazer uma rede macia

Que mastiga de alguma forma a fama de Cidade Jardim

 

Fazemos todos estes blocos para o encontro

E a vontade do muro hoje infelizmente se sobrepõe

 

Ao ponto de não sorrirmos para o fim do túnel

 

Como se não fosse apenas possível


26/08/2022

COLEÇÕES DE INFÂNCIA

A formiga é um brinquedo

Que corre e captura pedaços da minha infância

 Sou dono de todas as formigas daquela avenida 


O aviãozinho pode parecer um bicho

Já fiz toda minha família ficar jogando aviõezinhos em harmonia

Já fiz meu pai inquirir os vizinhos sobre tanajuras

 

Faço coleção de coisas que não permanecem

Levo uma frota de papel nos bolsos


As minhas gavetas são maiores 

do que o mundo

 

Lá escondo o que os adultos não entendem

 

Minha infância cresce para todo lado

25/08/2022

TODOS OS BICHOS


Pedro decidiu que possui todos os bichos da natureza, inclusive os de verdade, aqui em casa. Acontece que esta decisão trouxe para a família algumas situações embaraçosas.

Como entrar, por exemplo, com todos eles no elevador?

- Apertam com o chifre os botões do painel, óbvio. E para abrir a porta, usam as orelhas – respondeu o menino.

E todos os bichos moram dentro do apartamento, então, até os maiores e pescoçudos.

24/08/2022

INSETO

O marimbondo morreu


E nada ao redor foi ferrão
ou movimento
Nenhum zumbido foi o que ficou

Lembro que as asas batiam
Caindo ciscos

Sua cor cobre fazia ameaças aos olhos

Havia um prego ou tiro sobre a minha nuca
E também uma leveza que não foi possível

Havia um inseto que era o instante,
O ponteiro e um dedo em riste.


O inseto era frágil demais para suportar

Isso foi antes de o marimbondo acabar

 

23/08/2022

OLHOS ABERTOS

Texto escrito em 12/03/11 e publicado no blog Minutal

         O seu olhar melhora o meu

Arnaldo Antunes

 

Preciso de roupas, rápido. Por isto busco o personagem de um conto meu antigo (Relato sob o outono), e suas vestes sem cor e a paisagem de madrugada, folhas secas e brisa persistente. Olho firme para a figura que criei e vejo que desenhá-la tenha sido talvez um alento de buscar um canto sem olhos, onde os movimentos são apenas os de qualquer moinho. Estar ali no co(a)nto, seria estar sozinho.

Até que ponto?

22/08/2022

BALAIO DE DIREITOS


D
ireito à herança, a todos os centavos sem o sorriso dele, o toque forte e seguro, o bigode já grisalho de tanta entrega.

A todos os centavos, sem sua graça e força, sem a presença junto aos bichos, junto à gente. Sem a graça de seu sorriso, o toque e a voz rouca.

Seu sorriso puxava a gente para a alegria que não monetiza. Não foi monetário, este perdulário de alegrias.

Direito aos centavos que restam depois dessa imensa perda. Incalculável é esta dor inflacionária, absurda.

O código civil não é do mundo da dor, não se sensibiliza, não chora comigo, apenas dita um rito inerte. Não percebe que não preenche nada.

Direito aos vinténs ao final do mês.

Deste mês que não passa, que se mistura a outros meses, numa invasão perene e fria.

Em caso de gravidez, à licença paternidade,

que doeu, como dói um buraco sem perspectivas de fim.

Como vai doer a inexistência de um passeio a cavalo com os netos, com a neta.

Como vai doer o som dos cavalos, calmos, com cuidado e prudência, num vazio.

Ele não conhecerá a neta que não teve, a filha que eu não tinha à época que ele se foi. Ele não perceberá como esta ausência é sentida. Não terei como dizer a ele, ainda que numa briga sincera.

Direito à privacidade,

Que eu guardo na recôndita gaveta do meu quarto,

Junto com alguns ilícitos insuspeitos, com algumas cartas e palavras dele, que agora consomem meus poemas e me levam às lágrimas.

Direito de ir e voltar arrependido,

Também de rir de algumas cretinas opiniões.

O luto é um espaço sensível, o corte em mim é fácil e estou num palco, suscetível.

Direito ao sigilo de minhas correspondências,

Por conveniência, beijadas com superbonder.

Quem recebeu cartas dele não entende o sigilo, suas cartas querem ser abertas, expostas, florescem.

Quem não recebeu cartas dele não entende a metamorfose. Sua caligrafia faz um amálgama com sua postura (de família) ereta, firme e doce de pai ou passarinho. Suas cartas não desligam a luz, não se ofuscam em qualquer gaveta.

Direito de resposta,

Na mesma medida da poda. Foi ele quem me ensinou, o dedo em riste, sobre o púlpito da razão e ética, inabalável e tão frágil, meu Deus...

Foi-se sem a minha resposta, num átimo, num segundo do tamanho do mar, ou em minutos comprimidos, inesperadamente cruéis.

Direito à grave pergunta da vida,

Torcida como um cavalo marinho. Incógnita.

A minha pergunta para a vida está num canto, repetindo a mesma frase sem sentido, falando sozinha.

E mais uma mão cheia

De direitos, direitos e direitos.

Sou um balaio destes direitos.

ABALO

Aqui dentro continuo em obras


Fazendo um puxadinho de entendimento
Plantando jardins nas sacadas

E também uma calha para escoar lágrimas

Vou rebocar a mentira de que digo lágrimas
Projetar uma viga firme que me sustente

Depois vou esperar pacientemente

eu

me desintegrar
Com o vento, a chuva e o sol
Ou de repente
Com um tremor sísmico
Que cisme em me derrubar daqui

Vou me despencar abraçado em alguma brisa

19/08/2022

SÉRIO? SERÍSSIMO? SERÚSSO? SERIAÇO? SÉRIO-TIRANOSSAURO-REX?

      Perto da casa do menino havia uma grande obra. Como estávamos no meio da pandemia, só poderíamos agradecer muito ao prefeito por trazer esta diversão para aqui bem embaixo de nossa janela. Realmente se revelava uma ação de uma generosidade ímpar. 

Logo pela manhã, os monstros de metal já começavam seus barulhos. Eram tratores enormes, patrolas, caminhões pipas, rolos compressores e outras máquinas que nem sabíamos ensinar os nomes.  

A obra era no viaduto do complexo Carlos Drummond de Andrade e virou rotina da família, à tardezinha, paralisar o trabalho e fazer um passeio para aquele safari urbano e de ferro. O menino lindo viajava com a visão das máquinas, se empolgava, vibrava e o dia começava mais ou menos assim:

Às 7:30 h da manhã: 

- Hoje nós vamos ver a obra? Não é? Sério? Seríssimo? Serússo? Seriaço? Sério-tiranossauro-rex? 

Era o jeito dele de nos arrancar um contrato inquebrantável.

17/08/2022

JACARÉ VERSUS SEU HUGO DAS SOBRINHAS

 

Fiquei sabendo que não é verdade que vovô escreveu o hino do Democrata de Sete Lagoas. Junto com os brinquedos de sucatas que ele fazia, das beliscadas de formiga que nos dava, também a memória tinha este registro. Se fosse verdade, o google diria. Não diria?

Então quero fazer justiça com o Seu Hugo e deixar seu nome voando por aqui: foi ele quem me mostrou o time certo para amar, foi ele quem nadou contra a correnteza da avançada idade e decidiu nos acompanhar até ao jogo Galo versus Democrata de Sete Lagoas, lá pelos idos de minha infância. À época, não existia o atual estádio conhecido como Arena do Jacaré (mascote do Democrata), e o campo de então quase dividia muro com a casa de meus avós.

Naquele domingo, passamos (eu e meu pai) pela roleta com o meu avô e fomos nos sentar nas arquibancadas repletas de fanáticos pelo esporte. Mal sentamos (eu já pensava no picolé de brinde) e a torcida vermelha e interiorana do democrata entoava para todos ouvirem:

- “Ahaha uhuh ô atleticano eu vou...”

E por aí foi a rima das palavras de baixo calão, desaguando nos córregos mais imundos das ofensas.