No início, a porta
Foi o fim do verbo
E deslizo sobre estas ruas a maior parte de meus dias.
É
sobre elas que disfarço algumas frustrações
Fingindo-me
apenas um carro em movimento
Como
aquele que passa, com mesma gana e cor e modelo diverso
Como aquele que só pensa em artes cênicas e não vê a entrada do túnel
Como aquele que repousa a mente numa melodia horrível
Como aquela moto que entrega e se entrega num risco caríssimo
Com
uma ideologia que o consome, como uma cegueira
Como aquele carro amarelo que não está à venda
Estamos
aqui por baixo e dentro da mesma intenção de ligação
A cidade busca com dureza fazer uma rede macia
Que
mastiga de alguma forma a fama de Cidade Jardim
Fazemos
todos estes blocos para o encontro
E
a vontade do muro hoje infelizmente se sobrepõe
Ao
ponto de não sorrirmos para o fim do túnel
Como se não fosse apenas possível
A formiga é um brinquedo
Que corre e captura pedaços da minha infância
O aviãozinho pode parecer um bicho
Já fiz toda minha família ficar jogando aviõezinhos em harmonia
Já fiz meu pai inquirir os vizinhos sobre tanajuras
Faço coleção de coisas que não permanecem
Levo uma frota de papel nos bolsos
As minhas gavetas são maiores
do que o mundo
Lá escondo o que os adultos não entendem
Minha infância cresce para todo lado
Pedro decidiu que possui todos os bichos da natureza,
inclusive os de verdade, aqui em casa. Acontece que esta decisão trouxe para a
família algumas situações embaraçosas.
Como entrar, por exemplo, com todos eles no elevador?
- Apertam com o chifre os botões do painel, óbvio. E
para abrir a porta, usam as orelhas – respondeu o menino.
E todos os bichos moram dentro do apartamento, então,
até os maiores e pescoçudos.
O marimbondo morreu
E nada ao redor foi ferrão
ou movimento
Nenhum zumbido foi o que ficou
Lembro que as asas batiam
Caindo ciscos
Sua cor cobre fazia ameaças aos olhos
Havia um prego ou tiro sobre a minha nuca
E também uma leveza que não foi possível
Havia um inseto que era o instante,
O ponteiro e um dedo em riste.
O inseto era frágil demais para suportar
Isso foi antes de o marimbondo acabar
Texto escrito em 12/03/11 e publicado no blog Minutal
Arnaldo Antunes
Preciso de roupas, rápido. Por isto busco o personagem de um conto meu antigo (Relato sob o outono), e suas vestes sem cor e a paisagem de madrugada, folhas secas e brisa persistente. Olho firme para a figura que criei e vejo que desenhá-la tenha sido talvez um alento de buscar um canto sem olhos, onde os movimentos são apenas os de qualquer moinho. Estar ali no co(a)nto, seria estar sozinho.
Até que ponto?
Aqui dentro continuo em obras
Fazendo um puxadinho de entendimento
Plantando jardins nas sacadas
E também uma calha para escoar lágrimas
Vou rebocar a mentira de que digo lágrimas
Projetar uma viga firme que me sustente
Depois vou esperar pacientemente
eu
me desintegrar
Com o vento, a chuva e o sol
Ou de repente
Com um tremor sísmico
Que cisme em me derrubar daqui
Vou me despencar abraçado em alguma brisa
Logo pela manhã, os monstros de metal já começavam seus barulhos. Eram tratores enormes, patrolas, caminhões pipas, rolos compressores e outras máquinas que nem sabíamos ensinar os nomes.
A obra era no viaduto do complexo Carlos Drummond de Andrade e virou rotina da família, à tardezinha, paralisar o trabalho e fazer um passeio para aquele safari urbano e de ferro. O menino lindo viajava com a visão das máquinas, se empolgava, vibrava e o dia começava mais ou menos assim:
Às 7:30 h da manhã:
- Hoje nós vamos ver a obra? Não é? Sério? Seríssimo? Serússo? Seriaço? Sério-tiranossauro-rex?
Era o jeito dele de nos arrancar um contrato inquebrantável.
Fiquei sabendo que não é verdade que vovô escreveu o hino do Democrata
de Sete Lagoas. Junto com os brinquedos de sucatas que ele fazia, das
beliscadas de formiga que nos dava, também a memória tinha este registro. Se
fosse verdade, o google diria.
Não diria?
Então quero fazer justiça com o Seu Hugo e deixar seu nome voando
por aqui: foi ele quem me mostrou o time certo para amar, foi ele quem nadou
contra a correnteza da avançada idade e decidiu nos acompanhar até ao jogo Galo versus
Democrata de Sete Lagoas, lá pelos idos de minha infância. À época, não existia o atual estádio conhecido como Arena do Jacaré (mascote do Democrata), e o campo de então quase dividia muro com a casa de meus avós.
Naquele domingo, passamos (eu e meu pai) pela roleta com o meu avô e
fomos nos sentar nas arquibancadas repletas de fanáticos pelo esporte. Mal
sentamos (eu já pensava no picolé de brinde) e a torcida vermelha e interiorana
do democrata entoava para todos ouvirem:
- “Ahaha uhuh ô atleticano eu vou...”
E por aí foi a rima das palavras de baixo calão, desaguando nos
córregos mais imundos das ofensas.