29/07/2022

MANIAS DO VOVÔ

   

        Era outra vez um bom velhinho. O melhor vovô do mundo. Sabia distribuir doces, bençãos e manias.

Tinha um cabelo branco, penteado para trás com brilhantina em excesso. Porque ele era de um tempo em que brilhantina era a moda e ele pegou o hábito de assim usar.

Vestia roupa nos trinques, toda passadinha. Porque queria estar sempre charmoso e estar bonito não era apenas uma mania.
    Só comia na mesa da sala, com uma toalha de pano florida, embaixo do prato branco, meio-dia em ponto.

Tinha um lenço no bolso, sempre azul, um pente e um bilhete de loteria da semana. Apostava nos mesmos números e só ele sabia o porquê. Parece que queria ser um super milionário.

27/07/2022

A CHEGADA DO CORONEL

 

Morávamos num pequeno prédio no Bairro Floresta. A rua era tranquila, algumas árvores por perto deitavam sombras e a meninada dominava as brincadeiras da noite e do dia. Eram tantas as invenções que às vezes observadores de outros bairros vinham para levar nossas ideias e truques para outros cantos da cidade.

Futebol de rua, soltar pipa, jogar pião, bolinha de gude, saltar tronco, seguir mestre, esconde-esconde, apertar campainha e sair correndo, tacar mamona, chamar alguns de bola, outros de tripa, caí no poço, queimada e todas que você imagina.

Pois foi sempre assim naquelas infâncias, até que foi anunciada a chegada do Coronel. Foi a mãe do Nem, filho de soldado, que disse:

-No dia 02 de fevereiro, o Coronel muda para o terceiro andar do predinho. Quero ver, meninada, a folia vai acabar!

Alguns não sabiam o que era um Coronel. Eu sabia. E expliquei: é alguém que tenta consertar os espinhos dos outros. E como a zaga toda ali era cheia de espinhos e amava a vizinhança como era (nossa!), a preocupação começou cedinho.

Até o dia 02 de fevereiro, dali a uma semana, as coisas pareciam que queriam mudar. Os narizes estavam mais limpos, a cada dia menos pés descalços e o Binha começou a tomar banho para ir à rua.

A trupe começou a se disfarçar de banda militar e, às vezes, nossas roupas pareciam uniformes. As calçadas eram varridas pela manhã, molhadas à tarde e ai de quem represasse as enxurradas.

Eu, que era uma criança que ainda sou, pedia para que chegasse o dia e acabasse aquela agonia.

Pois, dali a pouco, chegou o dia assim, rapidinho. E veio o caminhão de mudança do Coronel. Daqueles fechados, deixou caixas e caixas e parecia impossível ver o que tinha lá dentro. Muitos ajudantes apareceram e a mudança foi lá para cima. O caminhão foi embora em duas horas e na terceira hora chegou um carro com vidros pretos.

Desceu uma senhora.

Passaram alguns segundos.

Desceu o Coronel.

Toda vizinhança observava aquele homem, que ameaçava uma mudança de comportamento. O respeito estampado em mil medalhas.

E o Coronel subiu as escadas do predinho até o apartamento. A vizinhança continuava a vigília, talvez à espera de um pronunciamento. Naquele dia conheci pais e mães que eu nem sabia que existiam.

E o Coronel, sabedor das expectativas, apareceu na janela. Olhou ao redor, com olhos de sábio, e um jeito que nunca mais vi ninguém ter. Afrouxou a gravata. Abaixou as mãos, como se procurasse algo nos bolsos (talvez, os óculos) e disse, em voz solene:

- Eu me rendo. Bandeira branca!

E começou a arremessar balas de caramelo, soft, embaré, chicletes ploc, balas de goma, bubbaloo, pirulitos, balas de caramelo, embaré, soft, balas de goma, drops, bubbaloo, chicletes ploc, chocolate, pirulitos, soft, balas de caramelo, embaré e tudo que coubesse num coração como aquele.

26/07/2022

KUNG FU BETTA

           

   
O peixinho recebeu o nome de Tog. Parecia uma sigla, mas como surgiu da imaginação do menino, todo mundo gostou.

Vivia num aquário, com pedrinhas coloridas e uma rama de plástico no meio. Era vermelho, de um vermelho escuro e provocante.

Gostava de se exibir quando aproximávamos.

Parece que ouvi dizer que esta espécie gosta de briga. Tão pequeninho e indefeso... Será verdade?

O certo é que dávamos cinco bolinhas de proteína toda manhã, trocávamos a água do aquário toda semana, e ele observava com atenção os movimentos de toda a família.

Só não aceitava que se aproximassem do aquário.

Parecia encarar a gente. Se você colocasse o dedo indicador perto do vidro, ele dançava, abria as barbatanas, querendo defender o seu território.

Mas quem gostaria de trocar com ele, morar no seu minúsculo aquário? Fico me perguntando.

Era comum surpreendê-lo, dormindo. Dormia de um jeito quase estátua, que parecia fruto de meditação, que dava medo da frágil criatura ter-se ido. Parecia fingir de morto. Conferíamos com o dedo, cutucando para ver se estava vivo, e ele já acordava chamando para o ringue.

Foi numa destas que o menino teve a ideia de buscar o boneco de brinquedo do Kung Fu Panda e colocar bem em frente ao aquário.

Donde veio esta maluquinha ideia, ninguém sabe. Mas como surgiu da imaginação do menino...

O Tog observou aquele adversário pançudo, eriçou as barbatanas, quase ficando na ponta de um só pé, ops!, quer dizer, modo de falar...

O certo é que Tog não respeitou o mestre das artes marciais, o famoso e lendário Kung Fu Panda, e ficou fazendo cara feia, chamando o oponente para dentro ou ameaçando vir para fora, para uma contenda.

Ficaram um tempão olhando um para o outro.

O Kung Fu Panda, numa posição eterna de um golpe fatal, nem mexia os olhos, nem as pernas, nem os braços, nem nada, já que era mesmo de um plástico rijo.

O Tog se movimentava todo, num estilo agressivo, e acho que mostrou conhecer alguns golpes impossíveis para meros iniciantes. Ele era um mestre e nem sabíamos quando o compramos. Pensei que fizemos um bom negócio, portanto.

Acontece que chegou a hora da escola do menino e naquele dia havia dever de casa para entregar, era dia do brinquedo e o pai estava com pressa, e talvez por isto esquecemos o Kung Fu Panda em frente ao aquário do Tog.

Para quê, meu Deus?

Foi uma tarde inteira de intensa luta... pelo menos dentro daquela caixinha de vidro.

Se peixe suasse, o Tog estaria encharcado de tanto soco que dera na água.

Mas, valeu a pena. Pois, no fim da tarde, quando o menino voltou da escola, qual não foi a surpresa em encontrar o Kung Fu Panda deitado, com uma gota d´água na testa, bem próximo ao aquário.

- O Tog venceu! Gritou o menino, quando viu a cena.

TOG versus KUNG FU PANDA!

- O Tog venceu! Repetiu o menino, orgulhoso.

O pai, depois de fechar a janela, não soube explicar o que tinha acontecido, ficando com a explicação e entusiasmo do menino.

Na manhã seguinte à luta, por precaução, diminuiu de cinco para três bolinhas de proteína a alimentação do Kung Fu Betta.

25/07/2022

MEU FORRÓ

    O vovô decidiu morar bem longe, num sítio que a gente demorava para chegar. Passava por uma estrada de terra, muitas lombadas e um montão de curvas. Era tão longe que o vovô parecia morar sozinho naquele mundo, depois de uma ponte e de um rio, pelas bandas de Montes Claros.

Mas, como atrativo para o menino e demais netos, o vovô comprou um lindo e sistemático cavalo.

Aquele cavalo habitava o sítio como um doce que atraísse a criançada.

O cavalo parecia ser usado na lida da roça, ser de todos os netos, mas de alguma forma ficou aquela verdade que era do menino e só dele.

No primeiro dia em que o menino, cheio de expectativas, foi conhecer o cavalo que ganhara, decidiu dar-lhe um nome pomposo.

Pensara numa coleção deles: Corcel, Thor, Trovão e até Coronel. No entanto, o vovô se adiantou ao batismo, com uma voz carinhosa e na tonalidade certa, dizendo:

- É seu, o cavalinho, mas já veio com nome: Forró!, não é lindo?

Ah, mas ele disse com aquele jeito de avô e o menino adorou já ganhar um cavalo com nome de fábrica. E o nome era diferente de tudo e por isto era perfeito, de certa forma se encaixando com a esquisitice do cavalo.

É que o cavalo era de um tipo que, uma vez com cela, não aceitava passar perto de nada que ameaçasse deixá-lo fechado. Nada mesmo. O Forró era um cavalo baio, forte, ágil e que se desesperava quando diante de algum aprisionamento.

Cerca, porta, parede, corredor, tudo que desse a impressão de fechar o cavalinho era motivo para o descontrole. Até se o cupinzeiro do pasto fosse mais alto, o Forró já ficava cismado. Entrar numa baia, nem pensar. Ele pulava, nervoso, girava a cabeça, ameaçava dar pirueta, era um fuzuê.

E o menino aprendeu a lidar com aquele defeito do cavalo. Andava com segurança o dia inteiro no lombo do Forró, ao ponto de o caseiro brincar, quando o cavalo voltava todo suado, no fim da tarde:

- Ichi, deste jeito o Forró desaba!

O menino e o Forró criaram uma amizade bonita de se ver. O cavalo permitia alguns galopes, deixava que o menino o empinasse e era visível a alegria de ambos. Há uma foto do Forró empinando com o menininho que é linda e de tirar o fôlego.

Foi assim que, com o Forró no sítio, decidimos sempre visitar o vovô e o cavalo.

Certo dia, depois de alguns meses de saudades, compramos passagem para apear naquele rancho tão caro para nós e distante de tudo.

Havia uma notícia no jornal regional que trazia uma certa preocupação para nossos planos. No rumo do sítio do vovô, a poucos dias de nossa viagem, houve tremores de terra. Alguns jornais estampavam o nome que dava medo: “terremoto”. Será? Será que houve mesmo?

O menino, quando ouviu a gente falando sobre o tremor, comentou:

- Eu sonhei com isto. É o Forró me chamando!

Todos rimos da farta imaginação do cavaleiro mirim.

Telefonamos para o vovô, tiramos nossa preocupação e confirmamos nossa ida.

Os dias que antecederam a viagem foram de uma ansiedade enorme. Fizemos contagem regressiva e a saudade do Forró chegava a ser a maior das saudades.

Logo que chegamos ao sítio, o menino, antes mesmo de se aquecer no abraço do vovô, saltou para cima da cela e de lá não desceu nem para almoçar. Os dois, cavalo e menino, pareciam brincar como crianças.

Era fim de tarde, quando houve outro tremor de terra. Assustado, olhei para o longe e vi o Forró e o menino.

O cavalo estava empinado e vi quando sua pata tocou o chão, coincidindo com o estrondo que se seguiu.

E vi o cavalo empinar novamente e percebi o tremor de terra e ouvi o estrondo coincidir com o toque das patas do cavalo no chão.

Assustadíssimo, olhei para o vovô, que sorriu sem surpresas.

O caseiro também observava desde o milharal e, após o tremor e o estrondo, voltou a baixar os olhos e a capinar e capinar.

O menino gritava ao longe:

- Não falei, papai, que era o Forró?

____________

Se você brincar muito comigo

Prometo te deixar um pouco criança.

24/07/2022

COSMOS – FUTEBOL DE RUA DA MINHA INFÂNCIA

O Cosmos era o único time de futebol de rua treinado por uma técnica. Isso mesmo, era uma moça que nos treinava e, embora já houvesse algum comentário sobre este pormenor, os meninos, querendo saber mais de futebol do que de preconceitos, não estavam nem aí.

Estávamos treinando duro havia dias para o confronto de domingo. No campeonato do bairro São Marcos, enfrentar o Ferradura era lutar contra a elite. Os caras tinham camisas com patrocínio, treinador bigodudo com currículo e pareciam todos loiros e de banho tomado.

O nosso Cosmos tinha um conjunto de camisas dado por um candidato a deputado federal e tinha o craque Nem. As camisas faziam tanto a propaganda do deputado que era impossível não imaginar que nosso time fosse o Vasconcelos Futebol Clube, o que, claro, era motivo de chacota.

Foi minha vó que bateu na porta do comitê de campanha e conseguiu o conjunto de camisas com o nome do candidato. As camisas, um pouco grandes para nossa magreza, eram mais uma faixa publicitária do que um uniforme. Para completar a alegoria, o Nem lidava com o ápice de uma micose espalhada por todo o corpo que ruía sua autoestima. A micose rendara-lhe o apelido de Torresmo e, sem tratamento, estava longe de acabar.

Nem, nosso camisa 10, portanto, sofria com a consequência do mergulho na Lagoa da Pampulha, deixando o time com poucas chances.

Mas seguíamos na esperança de vencer o Ferradura até a véspera do jogo, encorajados pela voz feminina de nossa comandante.

Acontece que a realidade quando se apresenta tem jogadores demais e parece bater duro como martelo nos dedos.

E por isso começamos o jogo nervosos e desentrosados e já perdíamos por um a zero, sem nem perceber como tomei aquele gol.

Seguramos vinte minutos o placar, até que houve uma falta perto da área. Imaginei que podia agarrar e afastei a barreira. O craque do Ferradura tomou distância e lançou outro chute no ângulo.

Saltei como se esquecesse a importância dos olhos da vizinhança. Saltei como se escrevesse por um caminho seguro, como se saltasse numa piscina azul e morna. Saltei como um gato vira-lata e agarrei direitinho aquela bola coquinho, impedindo o segundo gol dos metidos.

O placar de 1 x 0 era, até então, um alívio.

Fomos para o segundo tempo.

O Tande entrou bem no jogo e o Nem, ou Torresmo, se mostrou grande torcedor na reserva. Tande conseguiu a proeza de empatar o jogo com um gol de barriga.

O Dengo, mesmo amarradinho, conseguiu marcar o dele. Ganhávamos por dois a um e não acreditávamos. Nossa técnica, sempre tão severa, deixava alguns sorrisos em forma de palmas chegar a nossos ouvidos. Éramos pura empolgação àquela hora.

No último minuto do segundo tempo, o Ferradura Futebol Clube conseguiu um contra-ataque veloz. Em dois passos, o filho do dono do time estava a poucos metros da área, e deixara o Binha, nosso gordinho zagueiro, deitado na rua. Veio em minha direção e, antes de atirar, disse maliciosamente:

- Pega goleirinho!

E soltou um bicudo daqueles.

O chute veio forte como o do meu pai. Aquela defesa, se conseguisse, talvez fosse minha convocação para o Ferradura, pensei por um segundo.

Saltei e vi que meus reflexos eram de outro mundo.

Fiz o que nem dei notícia.

A defesa conseguiu segurar a vitória do domingo e a felicidade eterna da galera.

Quem viu a defesa, até hoje me respeita.

Nunca fui convocado para o Ferradura, que era um time de meninos penteados e de unhas cortadas.

O Cosmos, que foi imortal naquela tarde, teve vida curta na federação dos times de rua do bairro São Marcos. Durou pouco, menos do que a micose do Nem.

23/07/2022

#FIQUEEMCASA (SECO)

Era o início da pandemia. Se bem que, de tanto que a quarentena se estendeu, a gente acabou perdendo a noção de início, meio e fim. Mas o certo é que as rotinas começavam a mudar, o menino estava longe da escola e dos amigos e começava a dar nas pernas e nos braços uma sensação de que era preciso fazer alguma coisa.

O menino nunca ouvira falar que fungos, musgos e folhas pudessem aparecer nas pessoas e transformar a cidade numa enorme e multicolorida floresta tropical, mas a hipótese a este ponto nem era descabida, tamanha era a proporção da inércia de todos, parados ali como troncos indecisos.

              A frase que mais se ouvia e que a família do menino seguia à risca era #fiqueemcasa, assim, com hastag, para parecer uma tatuagem.

               Pois bem, o menino, obediente que só ele, soube ler o mandamento e não viu em nenhum lugar da frase o impedimento de levar baldes de água para o quarto.

              #fiqueemcasa não contraditava com #baldesnoquarto e, de certa forma, até mesmo auxiliava aquela tarefa difícil de se estagnar num apartamento de capital.

               #fiqueemcasa não trazia uma proibição de se imaginar, com auxílio necessário de muita água, num arquipélago privilegiado da costa brasileira.

               Decidido, foi assim que o menino encheu o primeiro balde e passou pela sala a caminho do quarto. Aproveitou-se do descuido momentâneo do pai, que, agora em home office, parecia mergulhado no computador, e foi começar a aventura.

               Eram muitos bichos marinhos naquele quarto: baleia, tubarão martelo, golfinhos, peixinhos pequenos, peixões, tartarugas marinhas e alguns dragões (ops!) que no parecer do menino pareciam gostar de água.

              Não seria justo lançar o #fiqueemcasa para aquela parcela considerável da fauna marinha sem o essencial, a óbvia quantidade equivalente de água. 

              E o menino pegou o segundo balde.

               E o menino passou de levinho perto do pedacinho do novo escritório improvisado do pai com o terceiro, quarto e quinto baldes.

              Um observador se perguntaria se os tantos litros de água coletados já não seriam suficientes para formar aquele trecho menor do oceano atlântico, enchendo todo o quarto.

              Outro observador talvez tivesse visto de esgueira o que o pai desatento só viu quando era tarde demais.

              E quando o distraído pai viu e ouviu a presença da água no apartamento à fora, em corredeiras, veio o grito, na forma de uma bronca severa, quase um urro:

               - Que chão molhado é este? Meu Deus do céu!!!!

              Diante do susto, o pai não teve outra opção senão deixar o computador na mesa (agora, vítima fácil da irmãzinha mais nova do menino) e correr pelo corredor, abrindo de supetão a porta do quartinho.

              - Meu Deus! - foram por minutos as últimas palavras do pai, que se viu engolido por uma onda gigante.

              Os brinquedos convencionais, carrinhos, instrumentos musicais, bonecas e peças de montar boiavam sobre o mar, numa profusão de cores bonita de se ver.

              Os brinquedos marinhos, estes, com um sorriso escondido sob a camada fina de plástico, eram cúmplices do menino.

              Algumas almofadas, parece que pelo efeito do isopor ou da bagunça, afundavam e voltavam a flutuar.

              Havia pequenas ondas que impediam a visão perfeita daquele húmido carnaval.

              O pai, recuperado o fôlego do choque, gritou pelo menino e deu algumas braçadas nadando até a cama, onde se encontraram. Pularam os dois, o pai e o menino, no cesto de brinquedo que flutuava e esperaram atônitos a água escorrer pela porta aberta e a maré baixar naquele quarto.

              Maré baixa, os brinquedos e objetos sedimentados sobre o chão, todos com uma película inesquecível de água, foi hora da bronca:

              - Onde já se viu trazer água, tanta água para o quarto, menino?

              O menino, educado, daqueles que secam entre os dedinhos do pé depois do banho, pedem para escovar os dentes e lavam as mãos sempre que suspeitam, argumentou:

              - Mas, papai, criança brinca. Amanhã posso brincar de novo?

              O pai olhou para o filhote ainda encharcado e, com a necessidade de educar, declarou:

              - Com água, não, Pedro! Amanhã é a vez dos bichinhos que voam. 

22/07/2022

O PORTAL DAS JABUTICABAS

           Daqui debaixo dava para ver quando o papai subiu no enorme pé de jabuticaba.

Estava repleto de frutas e o verde das folhas fazia um colorido bonito com o negro das bolinhas, que quase estouravam. As jabuticabas tinham um brilho de verniz e pareciam no limite do inchaço.

Papai subiu no pé de jabuticaba, por uma entrada que ele conseguiu e sumiu. Não dava para achá-lo e foi quando o menino começou a chamar:

- Papai, desce, desce, já pegou muita jabuticaba.

Nada do papai responder, nem descer, nem resmungar de boca cheia.

Foi preciso pedir para o tio subir atrás, achar o pai e tentar cutucá-lo, para voltar, enfim.

Lá foi o tio e nada do tio.

Já eram dois no pé de jabuticaba. Não dava para ver sequer os pés dos adultos. Não dava para ouvir a voz de ninguém. Como a árvore soltava, a todo instante, uns ciscos afiados, nem dava para arregalar os olhos de jabuticaba.

- Papai, titio, desce, já deu. O menino choroso implorava. Havia uma preocupação e um medo. E se...

O menino pediu socorro à mamãe, que assistia a tudo lá de baixo.

E lá foi a mamãe atrás dos dois, atendendo ao pedido do filhinho inseguro.

- Trago seu pai, trago seu tio, pode deixar!

Os galhos estavam tão lotados e gordinhos, que era impossível subir sem ouvir os “troft”, “troft” das bolinhas estourando nas roupas.

Lá foi a mamãe, de calça jeans e coragem. Foi e também se esqueceu da vida, ou entrou num túnel do tempo, ou caiu num portal para outra dimensão, ou entrou numa nuvem de sonhos, porque nada da mamãe voltar.

- Papai, mamãe, titio, cadê todo mundo? Falava o guri que tinha medo de subir em árvores e de perder os pais e de perder o tio e de sonhar estas coisas.

Já estava pronto o choro, quase explodindo, quando os três pularam daquela altura.

Pularam, voltaram, desceram ou caíram de maduros... mas eram outros. Certeza que não eram os mesmos. O menino, astuto para a idade, percebeu. Olhou com espanto, sorriu com seus olhos de jabuticaba, entendendo tudo.

Subiram adultos carrancudos, com dobras e ranzinzas.

Desceram três moleques sujos e empanturrados de tanta jabuticaba.

21/07/2022

KLARA E O SOL


Cheguei a Kazuo Ishiguro através dos textos da tradutora e crítica literária Camila Von Holdefer, que possui gosto de leitura muito semelhante ao meu. Sou leitor do blog de Camila e posso dizer que “por sua indicação” li Não Me Abandone Jamais e O Gigante Enterrado.

Quando vi a capa de Klara e O Sol, também de Kazuo Ishiguro, estampada em seu blog, baixei sem pestanejar. No entanto, antes de iniciar realmente o livro fui ler sua crítica e me deparei surpreendentemente com um texto que desmerecia sobremaneira o livro, rotulando-o como “indefensável” para um Nobel de Literatura (2017).

Já era tarde. – Já comprei, agora vou ler, pensei. E adentrei na fantástica viagem do livro.

20/07/2022

CABRUM, POW e PÁ

    

Naquele dia, o menino contou ao papai que estava com medo de trovão, rojão e balão, tudo que acabava com “ão” e fazia muito barulho.

O medo era aqui dentro da gente, mas parecia deixar tudo cá fora escuro como breu, como uma noite sem lua. Era de verdade e não era brincadeira, aquele medo. Machucava, mesmo, como espinho no pé, batida no joelho.

Era um medo de esquecer fantasias, de deixar as pistas de carrinhos de lado, de perder o sorriso por um minuto, de querer ir para casa correndo e deixar a festa. Mesmo com escorregador e guloseimas, a festa perdia a graça.

O que fazer quando o medo é assim grandão, papai? Perguntou o menino, com cara de choro.

- Ora, ora... tenho uma ideia - falou o papai, como se já tivesse sentido o mesmo medo.

– E se a gente desenhar os trovões, rojões e balões num papel? Desenhar com todas as cores de seus lápis, rabiscando forte cada estampido?

O menino, que confiava no papai, topou aquele plano.

E enquanto desenhava, usando preto para o trovão, amarelo para o rojão e vermelho para o balão, o menino dizia:

- Papai, de balão pequenininho, o medo nem é tão grande. Se o balão é grandão, aí não, o medo é gigante.

- De trovão baixinho, o medo é uma formiguinha. Se o trovão é alto, o medo vira leão.

- De rojão, lá longe, o medo é um traque. De rojão de time campeão, bem pertinho, o medo é uma explosão.

O menino conversava, imaginava e desenhava aqueles medos no papel. Dava até para ouvir o barulho dos desenhos.

Cabrum, pow e pá.

No fim da tarefa, o papai perguntou:

- Agora, e se a gente amassar a folha todinha, que está repleta de seus medos, surda de seus sustos, e jogar na lata do lixo? Topa?

O menino gostou da ideia, amassou na hora a folha com os desenhos dos medos e deu para ouvir um tanto de barulho medonho dentro da bola de papel. Era um cabrum, pow e pá baixinho, abafado pelas dobras.

Na sequência, aqueles medos barulhentos foram parar bem na lata do lixo, junto com restos imprestáveis de outras coisas. Não jogaram na lata dos recicláveis, para nem ter perigo de volta.

- Agora, e se a gente descer com o lixo e ver daqui da janela os seus medos irem embora?

Era dia da coleta e, à noite, quando chegou a hora, ficaram os dois debruçados na janela, assistindo o caminhão da prefeitura, com os moços da limpeza, recolhendo tudo, inclusive aquela folha enrolada cheia de medo, cabrum, pow e pá.

Os moços da limpeza nem suspeitavam do perigo que corriam.

Será que no lixo de cada casa havia uma folha com medos desenhados?

O caminhão de lixo foi embora, lento e pesado, rua acima, levando na caçamba todo o medo do menino. 

19/07/2022

ele

É hora de engajamento

Colocar a poesia numa folha

Ou numa porção de papéis picados



É preciso atravessar que

Ele olha no espelho e vê a farda puída



Sua farda não combina



Vê ao redor um mundo de plástico

Em processo de envelhecimento

O amarelo é uma quebra de contrato



Seu poder vira pó e pode virar meme

Ninguém ri da piada

seu poder

Farelo

A insígnia ficará sem escoro

Não consegue disfarçar o rancor e medo



Ainda pode encontrar uma vítima ou fazer dancinhas



Seu rosto é diferente sem o filtro

Cada segundo é um inimigo

É simplório colocar uma máscara



Encontrar alguém que minta!



Não afaste o espelho neste instante, sugiro para ele

O espelho está em movimento, como tudo em volta



Só a queda é coerente

18/07/2022

AS MAIORES MANGUEIRAS DO MUNDO

Eram três grandes mangueiras na casa de vô Hugo.

Segundo o que todos diziam, as maiores mangueiras do mundo.

E vô Hugo se orgulhava de poder lustrar de quando em vez as plaquetas com as inscrições dos méritos dos pés de manga.

Imagina, todo o pódio ali no seu quintal.

Era uma fortuna os pés de manga espada, figo e sapatinho.

E por isso o dezembro chuvoso era uma festa.

A maior mangueira, que ficava em frente à casa, ao menor vento, nos assustava com fogos de artifícios que eram os pedaços de telhas esvoaçando para todo lado.

Vó violeta morria de medo.

Nós, netos, quando a telha aguentava, ficávamos em posição de partida, ouvindo o rolar das mangas pelas canaletas, e, pronto, quem pegasse a manga madura era o campeão.

Passava a chuva, que lavava a rua, mas não lavava nossas bocas e memórias de amarelo de manga. Íamos para o quintal, brincar de tudo.

E vô Hugo dizia: “Não assustem as rolinhas”.

Rolinhas que eu nunca vi.

Procurava por todo quintal, entre as três árvores gigantes, perto do muro do mundo, em cima daquele telhado e nada.

As rolinhas do quintal de minha infância eram um mistério ou uma ausência, apenas confirmadas pelo receio de meu avô.

Até hoje não sei se existiam.

Às vezes, imagino-as voando, sem cor, só aquela fronteira em forma de pássaro, batendo suas asas transparentes.

17/07/2022

VALDO – FUTEBOL DE RUA DA MINHA INFÂNCIA

          

Que saudade do Valdo.

Era um menino engraçado, ainda se acostumando com o imenso corpo, que dera para crescer a uns anos e parecia não querer parar naquele tamanhão. Parecia ser maior que ele mesmo, mas fazia com gosto parte do nosso pequeno time.

Éramos o Binha, Dengo, Tande, Berê (o craque), Nêm, Célio e Valdo.

E todos estávamos esperando aquele dia.

Seria a final do jogo da rua e disputaríamos o título com o pessoal da rua de baixo.

Pois bem, começamos o jogo perdendo e eu já tinha tomado dois gols.

O Nêm, que corria muito e tinha apelido de Torresmo, empatou, com dois sorrisos que só ele.

Lá pelo meio do segundo tempo, vi Valdo sozinho e arremessei a bola na direção daquela montanha-menino. Ele dominou, driblou o zagueiro que quis impedir e chutou forte.

Forte, tão forte que o golaço pareceu covardia com a meninada.

Vibramos tanto que descobrimos naquele instante sermos uma família.

Mas o chute tinha sido muito forte e o pessoal de lá não gostou. Não gostou tanto que se negou a buscar a bola que tinha ido parar num pomar que havia lá embaixo.

Era conhecida a regra: quem tomasse o gol, buscava a bola. O outro time apelou e quebrou o velho costume.

Num momento de felicidade e humildade, o nosso herói sentenciou:

- Deixa que eu busco!

E lá foi o Valdo buscar a bola do jogo, no meio das frutas e da passarinhada, sem querer parar de ser feliz.

Lá foi o Valdo com um sorriso aberto e gigante.

Lá foi o Valdo para o lugar que a gente pensava que sabia.

Ele foi buscar a bola e não voltava mais.

O tempo passou, veio a noite, a hora do banho e o Valdo não voltava.

Nunca mais voltou.

Ganhamos o jogo que não terminou.

Perdemos o Valdo de vista.

Nosso time para sempre jogou desfalcado.

Que saudade do Valdo.