22/09/2022

APOROFOBIA

Morador de rua pôs um enfeite em frente ao improviso

De sua casa de embalagens que incomoda a noite

Se a flor for sorriso, alguém toma

Quando a hora for precisa, alguém enxota

 

Não pode sair sem aviso, que perde o catre

Não pode levar o troço, que perde o passo

Carrega consigo tudo que acumula

Da vida que expulsa e ninguém embala

21/09/2022

POEMINHAS


- Poema, Olhos, Saca-rolhas, Gaveta e treta -


Meu poema sem seus olhos é um saca-rolhas na gaveta.


Entendeu a treta?

19/09/2022

5º CASO. PICHAÇÕES

 Multicores

5º Caso. Pichações


tac tac tac tac tac tac tac:


"todas as peças de vidro estão em mim"


tac tac tac tac tac tac tac:


"tenho nos pés o último par de sapatos"


tac tac tac tac tac tac tac:


"emotion tem botões?"


tac tac tac tac tac tac tac:


"tirei uma fotografia do móbile"


tac tac tac tac tac tac tac:


"JOHNNYSIO!"


(som de passos correndo...)


18/09/2022

ENTRE O FOLCLORE E OS MÓBILES

Por Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior

    
O livro de poemas Casuística, de Johnny Guimarães (Ed. Alba, 2003), parece imaginado pelo autor como a realização de um Apolo juiz & promotor de si mesmo. Para os leitores de orelha de livro, ele oferece um deleite, pois faz poesia na orelha. É como diz Jô Soares: a orelha nasce, depois a pessoa cresce ao redor. Parece sonhar que do branco sobre branco de Malevitch podem nascer bandos de cores que sairão, ao primeiro olhar, esbaforidas e soltando penas de pavão rumo aos olhos do leitor.

    O estilo possui algumas ligações com o estilo da obra anterior, Dentre Outras Coisas, quando o poeta explodiu com força na primavera de 1996, contribuindo intensamente no Estado de Minas, ora elogiando a genialidade de Carlinhos Brown, ora atacando o poderoso Jero Oliva. Durante certo tempo, Johnny foi poeta eletrônico do Canal 25, fez prosa poética ao vivo sobre o incêndio do Palácio das Artes: cada chama era um de nós vendo o espetáculo do drama real. Queria ver esse texto em livro.

    O que vejo em Casuística e o que me parece, nessa segunda obra, caracterizar o poeta é seu fascínio pelo mal e pelo grotesco da vida. Ele quer fazer artesania do verso, vaso grego de Bilac, com a lama das ruas, com o grotesco e o mínimo arabesco. Os traços da violência e do horrendo aparecem, muitas vezes, quase crus, outras vezes sublimados, com pinceladas mais fortes do que no livro anterior: “Balas em rota, entrando:/Teima de cigarro vivo/Berne saindo ileso, silhueta rasgada, voz ardendo/Brasa de lagarta acesa” (1º caso); “Perneta, aprendeu estripulia, fazendo truques com o guidão”; “Um pedaço de pau de estante/ Nas mãos de um brutamontes sem cansaço/ À espera dela/ Maldita, distante” (4º caso); “Quem bateu forte/ Sua testa preta? (6º. Caso); “Não há suporte para o chute forte/Que lancei sobre sua porta/ Na certa, a resposta para a cicatriz/ Que plantei em sua testa, não há” (no 8º caso). “1º choque: Dinâmica dos corpos. Dinamite”: “Estupro: estalo na hora exata o tal/ Da desconhecida, que se estrepa”.

    No entanto, esse novo livro demonstrou uma densa virada para o laconismo. Casuística tomou um longo tempo de maturação, os anos entre 1997 e 2003; mostra o poeta voltado para o encurtamento do verso.

    Prefiro, nesse livro de Johnny, os “casos”, que é como batizou seus poemas. São apenas doze casos. A ideia do móbile também o fascina: o quadro “Folclore”, de Mauro E. Gemini, mais do que dar a ideia de causo ou conto popular, transmite a ideia de um diálogo com as artes plásticas, ao estilo de um Calder, por exemplo. Os poemas curtos me pareceram hai-kais autocomplacentes: “No espelho/Brinco de verbo/dançando”. “1º. Pecado: Comigo/ Por que todo Deus/ Acaba com eu?” Deve-se evitar a complacência consigo mesmo, pois é pecado literário que se insinua nas melhores trupes. Tudo o que o artista faz é abracadabra?

    Mas, como dizia Bernard Shaw, “compreender tudo é perdoar a todos”. Johnny, poeta de nome anglo-saxão, troca os números das páginas do livro por cores: verde, amarelo, vermelho, roxo, laranja. Como diria Caetano Veloso, “americanos são muito estatísticos”.

    Para Johnny, a mulata não é tal. A direita festiva interessa? O formato do livro, a capa, tudo aponta para uma estética minimal, econômica e tácita. Deve-se falar pouco, economizar palavras. Johnny, o yankee da terra dos Miltons Campos & Nascimento, exibe-se como o muquirana das palavras, o Dry Drummond semi-árido, o João Cabral dos Stresstabs, ululando em sua Sétima Dose: Fragmentos de um avanço de sinal (na verdade é, na sequência, seu sétimo caso):

    1, 2, 3 passos e engulo pés./ Sinal verde!/ Os carros parecem remédios ou agulhas: gol 1000 cor de stresstabs 600./ Uno Mille lexotan. Passat velho com detalhes prosac nas laterais./ Casal discutindo comprimido numa Saveiro vinho./ Pressa é poeira, que assenta na nuca e nunca mais sai dali. /Tomei pílula de CSN que ficou engarrafada no esôfago./ Harley Davidson às vezes apraz./ Sentir falta da noite tem diagnóstico?/ A rodovia medicamentosa sob minha janela/ Talvez solucionará minha patologia./ Pior é buzinar que meu declive/ (fobia) é enguiço do metabolismo./ (...) Atropelamento: medicamento que inaugura o estacionamento de minha morte.

    Dentro da lógica deste “johnnysio” mineiro, até mesmo a bacanal deve-se fazer quieto, em silêncio, numa postura britânica. Sem latim nem francês, ele pergunta diretamente: “emotion tem botões?” Não, poeta, a emoção não pode ser detonada com o simples apertar de um botão. Em alguns de seus poemas, não nos haikais mais espoletas nem nos mais traquinas poemas-piada, mas sim nos mais tranquilos e mais longos, sua poesia toca as cordas do coração, apesar dos Auschwitz da vida. 

Figuras: capa e contracapa originais da versão impressa. Arte de Mauro E. Gelmini na contracapa.

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16/09/2022

VOCABULÁRIO

Fogo e dor ditam 

o tamanho do meu vocabulário.


Se me chama ou me larga, 

invento um dicionário.




MÁQUINA DE NEGAR

Lembrei-me de uns olhos

Lembrei-me de um tapa

Qual cor desses olhos que não quero ver?
Qual força desse tapa que não engulo?

Verde era a cor do olho que me maltrata
Ardor era a voz do tapa que me malcria

Vermelho era a cor do olho que me vigia
Sereno era o timbre daquele toque que me sangrava

Azul era o céu sobre o olho negro que via
Branca era a pele da mão que me batia

Caramelos são os olhos que me assustam em sonhos
Dizendo que o tapa de olhos me levou a óbito

Por óbvio, eram cegos os olhos que não queriam
Eram frágeis os dedos que me cortavam

Quero extrair o caldo daqueles olhos
Quero torno naqueles dedos

Arrancar da lembrança tal precioso câncer
Quero morder a beleza que não cresce com meu medo.

Sou um desastrado arquiteto
De um quarto seguro.

SE VENDE

 VENDO UMA POESIA 

QUE NÃO VALE NADA


10º CASO: SUICIDADE

 Chumbo

10º Caso: suicidade


MANIFESTO


Nada nunca foi como eu sempre quis

Tudo sempre foi como eu nunca quis

Sempre tudo foi como eu nada quis

Nunca nada foi como eu tudo quis


Fim manifesto.


IMPOSSÍVEL

Olhe

É impossível olhar para trás

 

As gotas vieram de uma chuva que conto

Que é linguagem, imagem ou lembrança

 

Se não viu a chuva de ontem

não adianta fechar os olhos

 

Apenas se molhe

Nas gotas deixadas

antes que virem pássaros

 

Deite na lambança da chuva que não viu

É impossível olhar para trás


 

13/09/2022

PASSARINHO MAL-ACABADO

Ontem à tarde quase ouvi um passarinho

Destes já submissos à cidade.


Por trás de seu canto, 

havia barulhos de carros, avião, ar condicionados 

e máquinas de fazer qualquer coisa.


O passarinho se esforçava para aniquilar a cantoria 

de uma rouquidão mal-humorada.


Seu canto se contorcia, 

buscando um entrosamento 

com o fantasma do asfalto quente 

e o lixo jogado nas calçadas.

06/09/2022

ZERO

 

Esta nota foi um tapa?

Não considerou meu colorido.

Fiz no desenho da questão a intervenção mais linda que pude, 

com cores que mostram um mundo com graça.

Meu vermelho extrapolou.

Preferi não usar o preto para evitar a redundância.

Acabei com a ponta do lápis amarelo, que este mundo precisa de sol.

Colori cada figura que vi na página.

O zero na questão foi de caneta azul, impiedoso. Duro.

Eu não daria zero para o zero da professora.

Minha idade traz inocências que não permitem.

Tão bonito o azul do zero dela e o redondinho tão perfeito.

01/09/2022

GIF

 😢 Só há peso na palavra saudade

Porque há milênios de uma saudade intensa

Compartilhada a sangue

Por mar, terra e ar

 

Os emojis e gifs são muito novos para entenderem o que digo

 

Só há saudade nos meus poemas depois da morte do meu pai

Os outros textos eram cópias dos poemas dele