03/10/2016

REVOLUÇÃO CULTURAL

Quando fiz a limpeza do meu quarto,
Rasguei tudo que havia,
Até mesmo meus lábios e pálpebras,
O que foi um desconforto.


Só não rasguei um poema.

06/07/2016

VOO

Agora, abraço 
definitivamente 
o chão.


Há décadas não encontro 
outro caminho
para estes braços


Tortos, 
feito asas.

14/06/2016

A DANÇA DOS OLHOS DELA

São os olhos dela
Que estão no meu braço como relógio, como meu pulso
No meu peito, sem piscar, numa torrente de água caindo alto
Na minha boca, entre dentes e saliva e fabricando beijos e palavras
Sob meus pés, como meu chão
Sob meu teto, sem limites, sempre sendo mais alto do que o possível

À tardezinha, são os olhos dela que se põem
Cotidianamente, dando sentido a uma rotina sem cor e que agora é saboreada como passos firmes para o encontro dos olhos dela.

Quando durmo, agora alguém vem me cobrir com os olhos dela
São os olhos dela que quebram o relógio que disse
E colocam outro ritmo no lugar do tempo
São os olhos dela que ameaçam com as maiores dores, caso haja uma lágrima dorida por um gesto atabalhoado

E dizem que a angústia se torna uma dança quando há os olhos dela.

Os olhos dela são um manual de saber que nada funciona sem os olhos dela.

13/06/2016

!

Desc
ola palav
ra da minh

sola

APERTO-LHE A MÃO

D
aqui em diante

Esconde-se minha poesia,
Ruela esquecida de um bairro distante.

Dentre as bocas dos bueiros semi-abertos,
Entulham-se outras coisas:
Utensílios, dois ou três dedos que doem,
Gordurosas teclas de uma máquina idosa.
Um relógio sem corda
Em forma de forca.
Chaves perdidas que coleciono, documentos inúteis,
Times inteiros de papéis e suas boas intenções,
Cascalho.

Tenho ciência da fragilidade desta minha família,
Objetos sem fetiche e verniz.
Sei que a chuva nunca tarda suas ameaças
Por onde a gente tenta fincar pés.
Todavia,
Sigo nesta rua,
Toda-a-vida,
Olhando ninguém perder o sono
Por estes deslizes.

12/06/2016

FLAGRANTE

Qual Sebastião Salgado registrou
O êxodo populacional de meu quarto?

Quem, aqui, correndo perigo
Ao lado de meus beduínos?

Nem mesmo uma fotografia
Agonizando em branco e preto.
Nem mesmo um flagrante
Deste último refúgio do mundo.

10/06/2016

POEMAS PRIMOS


Sei que perdi do poema o traquejo
Mas, ontem, quando topei numa dobra do instante
Uma dupla de amigos, que só de pensar gaguejo
Vieram alguns versos assim de sobra

Claudinho e Robinho são primos diletos
Da molecagem lá de um quintal distante
E tive sorte de abraçar os gêmeos
Numa torcida para que o vácuo estanque:

Os dois vieram em coro me dizer
que parte de meu tesouro
Está enterrado aqui, na infância.

Com a alegria com que me ensinaram a jogar bola
Com a paciência com que se lida com um mais moço
Vieram ser primos de outrora
Na exata hora em que a casca vencia.


09/06/2016

A PARTIR DO FILME SONHOS ROUBADOS

Há um pulo na cachoeira na ponta de meus dedos
Há um mergulho na lama em frente aos meus pés

Há também a inércia do medo
Há quem sabe o recuo sem fé
E olhos que são morcegos se esgueirando

A batida do funk sou eu
A dança da laje é comigo
Sou filho do beijo da puta
Mas sei fugir disso
Tapando os ouvidos e dizendo um gago “não” compulsivo
Sentando num banco inimigo, maldizendo a mulata
Correndo do que seja entrega e troca e janela e sorriso
Poupando dias gerúndios sem riscos

E posso negar, simplesmente
Construindo uma represa de argamassa
E posso aguardar, de repente
Que se faça a fissura
Que depois me alague

Mas o passarinho conta
Há mesmo um buraco que se abre a todo minuto
Como um dia sob o menino, maluco por um culpado

Há um bater de asas sem estrutura
Sem pilar ou arquitetura que sustente o sonho seguro

Aqui é o fundo do poço, então salte
Aqui o lago é profundo
Aqui é o salto na pedra, então quebre
Aqui é a gastura de ratos e surpresas

Aqui dá um frio na barriga.

04/06/2016

ENTENDEU?

Estava aqui
Aquela voz
E agora que sou
Perturbado
Nada entendo

Estava aqui
Aquela pele
E agora que sou
Em carne e osso
Nada entendo

Estava aqui
O seu beijo
E agora aqui sozinho

A saudade

Entendi


26/05/2016

MINHA PIPA

Minha pipa, quando dei linha,
Caiu no telhado da vizinha.

A ranzinza da senhora,
Só devolveu a rabiola.

24/05/2016

HEMODIÁLISE

Na primeira fileira,
Minha língua toca a poeira da tela
E cutuca a orelha
Daquela atriz marroquina 

Pelas costas pressinto
Olhos das mil cadeiras
Perturbando minha hemodiálise.


Fim da sessão e um Landall

Ilumina minha análise,
Esperando que eu me realize. 

Duvido. O diretor não passou da epiderme. 

Por isso, chuvisco em meu caminho de ir embora.
Por teima, sem grilos nem pipocas,
Tento traduzir aquele verbo de muitos erres.

Chuvisca.

Após duas ou três tentativas
De metáforas batidíssimas,
Ocorre-me a risada zombeteira de Mutley.

THE END,
A melhor medalha para um rabujento.

 


23/05/2016

O QUE O SORRISO DELA

O sorriso dela me...

- Surpreende?
- Arrebata?
- Desengasga?
- Arremessa?

me...

- Tranqüiliza?
- Sossega?
- Instiga?

me...

- Justifica?
- Acelera?
- Sensualiza?
- Explica?
- Impressiona?
- Ruboriza?

O sorriso dela me arranca palavras até me deixar numa queda interna, com braços girando sem anteparos, sentindo o prazer de um frio na barriga e um grito mudo sem perguntas ou lógica, como se apenas fosse o caminho possível. Tão singelo e certo o sorriso dela que me...

20/05/2016

1

veio de novo

no meio do caminho 
como uma quina

 

caiu certo
no olho
como uma ferpa


sugou tudo
que tenho
como uma fenda

é um surto
um cuspe
um primeiro espasmo
um rio (de novo?)

como uma sina
uma perda
um mantra

um lago é o poema
que. sempre. tenho. que. delimitar.

nunca um rio

mais diques do que bruma

sempre lago

 

mais letra do que sangue.

 

 

Johnny Guimarães